quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Sobre coisas difíceis

Tava pensando, sabe.. Eu não escrevo sobre coisas difíceis.
Às vezes, me pergunto, seriamente, que tipo de jornalista eu seria (serei?) se não pego o tempo que gosto de ter pra escrever e escrevo sobre o 11 de setembro, Obama x McCain, campanhas eleitorais brasileiras, grandes cinemas do mundo, choques culturais, acontecimentos revoltantes...
É claro que eu observo a tudo isso, que eu opino acerca de tudo isso, mas tudo isso... É o bastante?
Eu passo muito mais tempo analisando as relações humanas do meu dia-a-dia, principalmente aquelas efêmeras, que surgem num bom-dia ao taxista ou num dar o lugar do ônibus a uma grávida e logo depois se dissipam. Aquele laço que se cria e ao mesmo tempo em que se cria, se desfaz e, quase que imperceptivelmente, muda e molda cada lado dele. E ninguém escreve sobre isso.
Eu vejo e escrevo.
Eu vejo e escrevo com muito mais sensibilidade sobre cada mudança de humor do meu estado de espírito. Sobre a desconhecida moça que passa por mim cheia de sacolas, problemas e horários, enquanto eu vou de carro pro outro lado, cheia de pressa, divagações e cansaço. Sobre a estranha sensação de intimidade que surge durante uma rotina. Qualquer rotina. Qualquer intimidade.
Coisas assim. Coisas humanas demais. Coisas desapercebidas demais. Pros outros. Pros grandes. Pros que escrevem e sabem escrever sobre coisas difíceis.
Eu não sei escrever sobre coisas difíceis.
Talvez eu não sirva pra escrever sobre os grandes e mais importantes acontecimentos da Terra. Talvez eu não sirva nem pra escrever sobre os grandes e mais importantes acontecimentos de Campo Grande! Talvez eu não sirva pra ser jornalista. Minha coisa é outra. Soa superficial e é a coisa mais profunda do mundo. Soa inútil e é a base, o cerne e o âmago da questão de tudo.
É suor, lágrima, pele, sentimento, cheiro. É homem.

É mais difícil.


(Mas, se eu posso escrever sobre essas coisas mais difíceis ainda, nada me impede de, pelo menos tentar, me equiparar aos que escrevem sobre coisas difíceis.

Essas pessoas que eu admiro tanto. E sobre as quais, escrevo.)

4 comentários:

Fontes disse...

Já existe esse tipo de jornalismo que você fala, e faz.

Chama-se poesia.

(e eu tava há mais de uma semana visitando o eunoponto todos os dias esperando posts novos seus. Esse pessoal que muda e não avisa me dá nos nervos ^^)

Du Graziani disse...

... talvez ares de muita seriedade tenham tomado sua cabeça ...

As pessoas tem habilidades diferentes, criações diferentes, visões de mundo diferentes ...
seria no mínimo fútil rotular uma categoria de "O jornalista".

Já te disse pessoalmente que as suas divagações passam bem longe das que eu imaginaria serem desconexas, para mim ...
... isso se revela mais difícil ou mais fácil ??

Acho que não, revela habilidades, sentimentos que vc possui e outras pessoas não... e isso é bunito, o mais bunito, eu diria ...

não coloque pedras no seu caminho... não tente adivinhar como será seu futuro jornalístico ...

infelizmente a previsão traz frustração ... viva o hoje, o amanhã e talvez o depois de manhã ...

NAO MAIS ...

Alice Agnelli disse...

paulinha,
eu posso tomar suas palavras como minhas?

você conseguiu desenrolar em um texto todos aqueles pensamentos bagunçados que eu tinha na minha cabeça de achar que minhas observações sobre os mais efêmeros detalhes das mais singelas formas de vida seriam inúteis e fáceis demais se comparados às coisas difíceis escritas, comentadas e discutidas nos jornais.

nesses momentos, eu também penso: mas peraí, que tipo de jornalista quero ser eu se só escrevo sobre momentos que parecem ser tão desimportantes, fugazes, íntimos e pessoais...
tão únicos, restritos...

que tipo de jornalista é essa que não fala da fome na áfrica mas da dor de ver uma criança sentindo-se vazia -literalmente-, com seus ossos saltando à vista mais do que a alegria inerente de sua idade?

que tipo de jornalista ao invés de discutir problemas políticos prefere ouvir conversas alheias no ponto de ônibus - e, para minha alegria, muitas delas acabam em política - assim, apenas ouvindo, por ouvir, por gostar de ouvir, por gostar de gente?

que tipo de jornalista seríamos, nós, paulinha?

seríamos, nós, jornalistas?

ou poetas?
ou nada disso?
ou tudo?!?

sei lá.
só sei que você não tá sozinha nessa.
;)

(e obrigada por não me fazer sentir sozinha também!)

Felipe Lobo disse...

Ah, Paulinha, não se sinta assim! Jornalismo é estar com as pessoas. Essa visão de que jornalismo é algo distante, eloqüente, distante é, na verdade, perigosa (o na verdade é grifo meu, quem sabe a verdade?).

Saber escutar os outros, saber observar o mundo nos detalhes, perceber o que acontece a você nas situações mais cotidianas são formas das mais belas de se fazer jornalismo. Diria que é mais do que jornalismo até...

Mantenha seu olhar pessoal, os detalhes, a vida em miúdos. Isso é riqueza. Olhar para as coisas grandes é fácil, todo mundo vê. Mas e as menores, aquelas que de fato mexem com as pessoas?

É aí que você e todos nós entramos. Não se esqueça: fazemos comunicação social. Social, antes de tudo. Estamos com as pessoa,s somos as pessoas, fazemos parte do mundo, não o observamos apenas como narrador...

E chega que já falei muito.