terça-feira, 14 de outubro de 2008

Não tenho títulos para assuntos difíceis

Hoje eu quis escrever sobre coisas difíceis. As tais das coisas importantes que saem em jornais - ou não. Nunca tinha visto aquilo, antes... Enfim, tudo bem, eu fazia uma idéia daquilo. Mas não daquele jeito.

Assisti a um documentário sobre alguma escola secundária na África, uma das mais baratas da região, que custava cerca de 20 libras. Resultado: nem todos os que queriam podiam pagar por ela e não podiam entrar nas salas os alunos inadimplentes. Ficavam então ali, aos montes, como animais uniformizados, do lado de fora da cerca, aos olhos humilhantes de todo mundo que passava, enquanto as salas de aula, vazias, ministravam alguma coisa considerada digna aos que possuíam dinheiro.

Alguns chegavam a fazer furos na cerca dos fundos para conseguirem entrar escondidos e estudar. Para comer também, vai. Que seja. Fome de comida ou de sabedoria é tudo a mesma coisa. Dá tudo na fome de esperança que eles têm. Seja de um futuro melhor, seja de simples sobrevivência.

Os que guardavam dinheiro suado de algum emprego sujo ou mal pago para quitar o que deviam, ou pelo menos a metade do que deviam à escola, às vezes adoeciam, malária, tuberculose, aos montes.. e tinham que usar todo ele para pagar o tratamento, rápido. A cada 30 segundos uma criança morre de tuberculose na África. Nenhuma quer ser a próxima.

No começo, fiquei com raiva da diretora. Depois dos professores.
Depois compreendi.
Ninguém ali tem dinheiro, meu Deus.
Tudo que a diretora queria era poder pagar aos professores.
Ninguém ali pode se dar ao luxo de fazer caridade.
É bem isso. É bem assim.
Fiquei, então, com raiva do governo. Do mundo. Das utopias que rimam com justiça.
Depois compreendi.

Essa raiva é passageira.

Quando mudei de canal tinha uma senhora gastando 585 dólares em roupas pro cachorro.
Fiz as contas (Eu mesma! Tô sem celular!)
585 dólares em roupas pro cachorro colocariam cerca de 14 daqueles africanos na escola.

Essa raiva é eterna.

Ela sempre volta. No canal seguinte, no mês seguinte, na década segunite, que seja.

O mundo é assim. O homem é assim.
Eu sou assim. Eu gasto comigo 20 libras, 585 dólares, mais até, se deixarem. (Que minha mãe não leia isso)!
Tá todo mundo cansado de saber que todo mundo é assim.
Mas.. será que a gente tá tão cansado a ponto de não fazer nada? A ponto de sair topando com essa raiva insistente toda hora sem fazer nada?

Minha irmã vai fazer medicina.
Vai pra África, por um tempo. É fato.
Ela sempre teve essa idéia. Ela nunca mudou essa idéia. Ela já tem planejado.
Todo mundo lá de casa já sabe.

O que eles não sabem é que talvez eu acompanhe.
Pode ser viagem, pode ser fogo de palha, pode ser uma visão "ongueira" ridícula que não sensibiliza mais ninguém e ninguém mais quer saber.
Mas eu preciso fazer qualquer coisa.
Porque nem eu, nem niguém, temos o direito de julgar qualquer vida que cruza o nosso caminho, inclusive a nossa mesmo, simplesmente desprezível, $implesmente $em $entido.

6 comentários:

Fontes disse...

"$implesmente $em $entido" seria um título razoável. Mas eu também odeio dar títulos, nunca acho um ideal.

Du Graziani disse...

O mundo é mais complexo do que isso, Paulinha. Acho que sua ajuda é um ato maravilhoso, digno de pessoas que tem um apreço imenso pela vida. A fome de sabedoria e a do estomago vazio, como vc disse, não são iguais. A fome do estomago leva a pessoas a fazerem loucuras, a serem brutas, irracionais. A fome de sabedoria leva as pessoas à morbidade, inaptidão, salvo raras exceções. Temos que tomar cuidado também com essa idéia de que temos culpa pelo que ocorre. O que há é uma situação que já existia. Caimos neste mundo, deste jeito. Vc não tem culpa disso, nem eu. Outra atitude que vale reflexão é esse sentimento de pena que vc sentiu, nas entrelinhas percebe-se. As vezes o que aquelas pessoas precisam nem é de dinheiro ou comida, mas de afeto e cuidado.

Sua intenção é linda, enobrece a alma e faz de você uma sonhadora, sonhe muito ...

Fontes disse...

discordo de você, sorriso.

Guardemos esse assunto para uma conversa molhada. Paulinha será convidada de honra e beberá uma rodada por minha conta.

Clara disse...

que seja visão "ongueira", que seja por caridade, que seja por peso na consciência, que seja para você se sentir melhor depois... contanto que ajude, não é?

mas acho que ser assistecialista não vai ajudar muita coisa a longo prazo, paulinha... a gente pode até dar um prato de comida para um faminto hoje, mas no dia seguinte ele vai ter fome de novo.
claro que funciona como medida provisória, mas se não for acompanhada por medidas estruturais, não vai adiantar muito...

e é por isso que essa questão das escolas que você mencionou parece ser tão importante... mas sabe de outra? há [muitos] lugares africanos em que saber ler ou não não faz a menor diferença =/.

e posso te indicar um documentário? o nome é "war dance", e é um dos filmes mais lindos que já vi... conta a história de três meninos ugandenses órfãos.
se quiser, te empresto =]

e outra... acho que o melhor é transformar essa sua raiva em algo prático. vc já conhece o site da unhcr? é um órgão da onu que ajuda refugiados de conflitos em todo o mundo, inclusive africanos.
acho que já é uma boa forma de ajudar, já que essa cena que vc comentou é muuuito comum em campos de refugiados [só que sem envolver dinheiro, mais por uma questão de vagas mesmo] =)

beijos!

Alice Agnelli disse...

Paulinha.

deixa eu ir pra áfrica com vocês?

(e eu tenho muitas coisas a comentar com vc sobre esse post, mas não por aqui ;)

Felipe Lobo disse...

Ajudar é sempre bom. Mas é difícil. Estamos em um mundo que a ajuda, mesmo ela, pode atrapalhar. Pode porque há quem se aproveite do discurso de ONG para fazer a própria vida melhor. Financeiramente falando.
Acho quie ajudar sempre vale, seja como for ou onde for. Talvez haja milhares de crianças africanas morando aqui em São Paulo. Cheias de fome, sem vaga em creches ou escolas, mas ainda com sonhos. Sonhos famintos.