quinta-feira, 4 de junho de 2009

Watergate

Lembrei-me de quando você me perguntou, espantada, se eu não achava seu casaco bonito, por conta de alguma coisa que eu falei, provavelmente pra te irritar. Ou de uma careta que eu fiz quando te vi com ele. Não me lembro bem.
Eu ri da sua carinha. E do seu olhar tímido e inseguro, que ia do casaco a mim, na porta da sua casa, antes de sair.
A gente ia não sei onde. Provavelmente nem tinha lugar pra ir. Provavelmente ia andar pela cidade e parar naquele restaurante chinês de esquina, a hora que fosse.
Nosso namoro era uma rotina. Não me venha reclamar. Não acho isso ruim. Digamos que trabalhar em você era acordar feliz às segundas.
Você gostaria dessa frase. E certamente só você.
Mas naquele dia do seu casaco, eu ri. Com muito mais ternura que o normal.
Te abracei, sentindo um carinho imenso e uma vontade de te proteger do mundo. E te beijei a testa, que ficava exatamente à altura da minha boca.
E foi ali que eu percebi que não te queria mais.
Não foi num click. Foi dolorido.
Doído, doido, devagar.
Ma s eu não tentei me negar aquilo. Àquela altura da vida, já havia aprendido a respeitar meus sentimentos como homem grande. A gente tem que respeitar esses adversários, senão eles vêem e esfaqueiam pelas costas mesmo, quando menos se espera.
Te olhei nos olhos. Aqueles olhos de jabuticaba graúda que eu não cansava de devorar. E vi saltar a água deles. E te vi chorar. Você, tão sensível, tão devotada a mim, percebera sem que eu precisasse falar qualquer coisa.
E por isso eu sou grato a você até hoje – e o serei para sempre. Porque por em palavras essa crueldade seria a pior coisa da minha vida.
Mal sabia eu que pior ainda seria presenciar esse amor ausentado. A gente costuma achar que as coisas só ficam mais reais quando ditas em voz alta – e por isso hesita tanto em dizer – mas isso dura só até o dia - ou minuto - seguinte. Quando acorda, a gente vê que não precisa falar nada. Simplesmente é. Em tudo que se vê, pega, sente, come. Em tudo que se é.
Engraçado como hoje eu me lembro desse dia como o dia em que você me perguntou se seu casaco era bonito, não como o dia em que eu deixei de te amar.
Deixei?
Ah, menina...
Seu casaco era tão bonito.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Lento(s)

Lento.
Lento ele vinha do outro lado da estrada.
Tudo estava lento. O vento, os passos, os pássaros. A poeira que seus pés levantavam ao andar.
O levantar da cabeça dela, do outro lado. O tirar a franja dos olhos pra poder enxergar.
O sol demorando-se para ir. Estendendo aquele laranja melancólico do fim de tarde seca. Ela espera.
E ele vem lento.
Quem assiste a cena de fora pensa estar assistindo a algum slow motion romântico. Mas desde quando a vida é cinema? Desde quando é bonita? Eesde quando quem tá de fora entende alguma coisa?
Ele só não quer chegar.
E ela só não quer ir ao seu encontro.
Finge que não vê.
Finge que está cansado.
Amam-se fingindo ainda amar.

  • Fingir:

Mulher nasce sabendo.
Homem morre ensinando.
E é o verbo de toda relação, em algum momento, por melhor que você seja.