terça-feira, 17 de abril de 2012

Do outro lado



De repente eu não quis te contar. Quantas saudades, Ana? E você não estava lá.
Acho que foi quase ao mesmo tempo em que não quis te contar as outras coisas. Todas as coisas.
Você nunca me conheceu de verdade, sabia? O que eu soube fazer na sua presença foi ficar boba. Nunca nada além disso. Ri demais, histérica demais. Só soei perdida, perdia o fio da meada, desconcentrada, desconcertante. Concordava com tudo. Tagarelava sem fim para que o silêncio não se instalasse entre nós denunciando o desconforto, a falta de intimidade, por mais tempo e camas que tivessem passado por nós, juntos. E eu não sou assim. Eu gosto tanto do silêncio. Tenho uma retórica linda. E termino todas as minhas sentenças! Eu as aceito, pelo menos.  Não me torturo, confundo e não me esqueço nem das frases das minhas piores leituras. Com você... Ai. De você eu recebia as suas frases como minhas e só, e mesmo quando não o fazia, ou elas, de fato e sem querer também o eram, eu me apartava de mim. Quando disse que seu filme preferido era Dogville, por exemplo. Quando você disse isso, logo de início, e meu coração deu um salto pra dentro, conhecendo bem o caminho pra boca, eu não tive coragem de lhe revelar que era o meu também porque você ia achar que eu estava só te xavecando e nem sabia quem diabos era Lars Von Trien. Deixei fingir que você me apresentou a ele, aliás. Droga. Um minuto que eu falasse isso antes e era você a se deliciar com essa coincidência apaixonante. Eu sempre cheguei atrasada. E você nunca ligou pra nada. Pra mim, todas as coincidências são apaixonantes. Pra você, elas existiam.
Budweiser cresceu absurdos e quase morreu atropelado, esses dias, pela vizinha que você sempre desconfiou ser traficante e Duda cresceu o bastante para me confidenciar que é. Ah! Duda noivou com aquele menino das canelas finas, que conhecemos todos juntos, no dia em que inventávamos sabores, se lembra? Sabor vem que eu te abro a porta de toalha. Acho que foi nesse sabor dela que ele se apaixonou. Eu me lembro dos olhinhos dele e da sua cutucada na minha costela. Quase mais nada daquele tempo faz sentido agora, a não ser os dois. Eu quebrei o dedo do pé e mudei de emprego. Duas vezes (as duas coisas). E não quis que você soubesse de nada disso. Ou melhor, não por mim. Se o soubesse não faria a menor diferença. Uma hora eu desconfiei que aquela vida minha que só existia compartilhada pelos olhos seus fosse mentira.
Era mentira. Eu não gostava dos seus comentários preconceituosos - inteligentes, engraçados, mas preconceituosos. Nem da sua insegurança com o corpo que beirava o ridículo, e o show de luzes apagadas e cobertores por todos os lugares. Te achava, sim, rebelde sem causa e, sério, Chico nem é tão genial assim. E eu relevei tudo isso com uma facilidade surpreendente e um desapego de mim sofrível. Eu amava. E sorria me esquecendo do que pensava. Só sentia. Internalizando o que você era para que fôssemos. Aceitei.
Eu aprendi a aceitar o que me viesse desde cedo. Se meu corpo não me permitia mais carne, que não a tivesse. E foi por aí que comecei. Logo, quando percebi quão triste foi ter querido continuar a minha vida - ou então começá-la - quando já era hora de começarmos as nossas, aceitei. Lamentei. Lamentei de morte, de perder jantares com a desculpa de uma indisposição só para poder lamentar sem censura. A sua. E a minha. Mas aceitei.
E foi quando eu aceitei até isso que te cuspi. A vida toda pela frente, o melhor sabor de todos.
Daqui da minha vida, saudades?
De casa, uns amigos e Budweiser.
Apenas.