quarta-feira, 27 de julho de 2011

Doida demais (aceita-se, também, com acento agudo no i)

Eu não vou à parque de diversões pra ir em carrossel. Pra que eu haveria de amar se fosse pra permanecer sã?

Quantas pessoas já não me julgaram por causa disso... Quantas vezes não ouvi, por quererem, e sem quererem, como a Ana Paula é doida, né. E eu não vou - nem você vai - dizer que não doeu. Doeu...
Mas a dor é um mero erro de cálculo na intensidade de um prazer. É só prazer demais. A louca...

Sim. Nós já estamos cansadérrimos de saber que tudo que é demais... enjoa? Também. E prejudica. Por que, então, nunca paramos para pensar que prazer demais, que é uma coisa praticamente fisiológica por inteiro, nos prejudique fisicamente (=dor)? Que a dor (não toda, calma, gente...), muitas vezes, seja esse tal prazer transfigurado, proveniente dos momentos em que perdemos a mão na hora de (ab)usar dele? Num tá fazendo o menor sentido pra você? Pensa sexulamente e ficamos por isso mesmo.

Mas sem nos esquecermos do outro lado. Tem o outro lado! Tem você. Você, que tá no carrossel do amor faz hoooras, balançando, prepotente e negativamente, a cabeça pra mim, que vôo descabelada, no brinquedo ao lado, gritando, de ponta cabeça, rodando no ar... Você vai doer. Vai doer, também. Porque, querido, tenho uma novidade pra você: prazer de menos também dói.

E prefiro, imensamente, pressionar o botãozinho do amor até quebrar, e explorar todo o seu prazer até doer do que igualmente sofrer por causa de um prazerzinho de comédia romântica. Doer porque me lembram constantemente pela falta de mão no amor... E daí?

Você realmente achou que aquilo que come metros e metros de gravata ou que tem lealdade com quem o mata fosse coisa de carrossel? Ah, vá. Acorda e troca de brinquedo, guri(a).

terça-feira, 26 de julho de 2011

Tutorial

Você precisa dormir ao lado de uma mulher com um olho aberto. E tenho dito!

Mulheres, preocupem-se quando as outras mulheres pararem de falar de você. Daí sim vocês estarão realmente feias, bregas, burras, sem graça, a ponto de não despertarem nadica de nada nelas, muito menos uma fofoca venenosa desnecessária: o maior e mais grotesco reconhecimento de superioridade que eu conheço. Mulher só vai falar, direta ou indiretamente, daquela que a supera ou ameaça. Porque pra mulher não basta estar no mundo; mulher tem de reinar no mundo! Tem de estar, no fundo, e às vezes bem na cara, acima de todas as outras. E camufladamente das amigas. Não que eu não acredite em amizade verdadeira entre duas mulheres mas eu DUVIDO da mulher que NUNCA se comparou a uma amiga querida. A uma inimiga, então, desprezo!

Homens, preocupem-se, bem... sempre. Porque as mulheres são loucas mesmo, não é só impressão sua. Se vocês lhes derem tudo, elas vão querer reinar sobre o impossível, o ridículo. Se vocês não lhes derem nada... também. Porque é natural... Mulheres não foram feitas para estar no mundo. Mulheres foram feitas para reinar no mundo! (decorou?)

Porque, no final das contas, é o que acaba acontecendo... Que outro destino teria um serzinho fadado a ser mãe?

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Pra falar menos de amor

Semana passada fui cortar o cabelo. Li no dia anterior que "pessoas com vidas interessantes não tem fricote. Elas trocam de cidade. Investem em projetos sem garantia. Interessam-se por gente que é o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Estão dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do zero inúmeras vezes. Não se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor, compram passagens só de ida."(Medeiros, Martha). Me caiu como uma luva e fui cortar mais feliz, ainda. Mas, como certas coisas só acontecem com quem não tem muita paciência e saco pra outras pessoas, ou com quem tá feliz demais, tinha uma menina no salão chorando em bicas porque cortou um pouco (a mais do que sonharia em seu pior pesadelo) do cabelo comprido, muito bonito, confesso. Talvez porque meu cabelo nunca foi tão lindo quanto o dela, talvez o trecho que eu li estivesse tinindo na minha cabeça ainda, e eu me achando a da vida interessante, fato é que não liguei nem um pouquinho com mais da metade das minhas madeixas caindo no chão, enquanto ela chorava copiosamente. Ah... tadinha. Num teve a oportunidade de ter um cabelo ruim na vida... Ah... =\

Vai gastar suas lágrimas com os órfãos do Sudão, minha filha!

Uma geração que acha bonito dizer que está praticando o desapego me chora porque corta o cabelo? É que esse desapego do qual ela tanto gosta de falar é de pessoas, né? Desculpa, amigo, mas desapego de pessoas não é a prática do desapego, não; é a prática da galinhagem mesmo. Do desapego de verdade poucos entendem.

É mais ou menos assim. Convide seus amigos para irem em sua casa, abra para eles o guarda-roupa, e ofereça o que quiserem pegar, tudo. Quando estiver gostando muito de alguma coisa, dê. Quando eu estou achando meu cabelo lindo, maravilhoso, corto. Para que nada assuma o lugar do que é de fato essencial. E caso você não tenha se tocado ainda, e ache legal desapegar de todo mundo assim, pessoas são essenciais, pessoas valem muito mais do que o seu cabelo, mesmo que elas não valham um tostão furado.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sublinhados meus

Os Anos, Virginia Woolf

"E com tal imparcialidade que era inevitável pensar que o deus da chuva, se tal deus existe, dizia: que ela não seja privilégio dos muito sábios, nem dos muito poderosos, mas de tudo que respira, masca e mastiga no mundo, dos ignaros como dos desgraçados, dos que labutam na fornalha para fazer cópias sem fim do mesmo pote e dos que esquentam a cabeça no cipoal das letras. Que todos se beneficiem da minha munificiência."

"E por que os homens pensam que os casos de amor tem importância?"

"Bem, uma vez que não podia ler nem dormir, ela seria apenas pensamento."

"O sol nascia. Devagar ele subia no horizonte, esparzindo luz. Mas o céu era tão vasto, tão nu, que enchê-lo de luz demandava tempo." 

"Tinha de continuar, quisesse ou não. Como são irrevogáveis as coisas! - pensou. Fazemos nosas experiências, mas depois é a vez delas."

"Ela já deve ter visto coisas assim. Ele tinha, muitas vezes. Mas não juntos - o que fazia toda diferença."

"Não haveria grande justiça ou liberdade para os da sua espécie se o gordo pudesse mandar - nem beleza."

".... examinando o adorável rosto da jovem, vazio de expressão ou de caráter como o de um pajem, em que nada está escrito, apenas a mocidade."

"Que importa o que ele disse, o que todos disseram, o que qualquer pessoa tenha dito - se o dia à frente lhe pertencia inteiro? Se ela estava só?"

" - Você é jovem demais para sentir isso. (...) Essa necessidade de encontrar as pessoas. De não perder nenhuma oportunidade de encontrá-las."

"O prazer é maior se partilhado. Será o mesmo com a dor? Será por isso que todo mundo fala tanto de doença? Contar desgraça alheia? Exteriorizar a dor e o prazer e, dando-lhes maior superfície, reduzi-los?"

"A dor bate o prazer de dois a um, pensou, em todas as relações sociais."

"Mas por que comer um pedaço de palavra como se fosse uma cereja na ponta de um cabinho?"

"Tudo retornará dessa maneira, em ciclo, apenas com uma leve diferença? - pensou. Se for assim haverá um desígnio; um tema recorrente como na música; meio lembrado e meio esquecido? ... um plano gigantesco, por um breve momento perceptível? Tal pensamento deu-lhe um vivo prazer: a existência de um plano. (...) É a maneira deles de fazer amor, pensou Eleanor, dando apenas meia atenção ao riso deles e a sua guerra de brinquedo. Outro aspecto do plano, pensou, usando a sua ideia ainda informe para registrar a cena presente. E embora essa forma de fazer amor diferisse da antiga, também tinha seu encanto; era um outro 'amor', distinto provavelmente do tradicional, mas seria por isso pior que ele? De qualquer maneira, pensou, estão cônscios um do outro, vivem um no outro; será o amor mais que isso? - perguntou-se ouvindo o riso deles."

"Havia uma certa obscenidade na inconsciência."

"Abriu o livro. Vai dizer exatamente o que eu estou pensando. Livros abertos ao acaso sempre fazem isso."

"Quisera ter o falcão da mente encapuzado, deixar de pensar, pois pensar é um tormento, e apenas vogar, vogar à deriva e sonhar. É a miséria do mundo, pensou, que me força a pensar. Ou seria isso uma pose? Não estaria se vendo na decorosa atitude de alguém que aponta o próprio coração a sangrar? Alguém que vê a indigência da terra como indigência, os horrores de terra como horrores, quando na verdade, pensou, não amo os meus semelhantes. Viu de novo a calçada salpicada de rubis, os rostos amontoados na porta de um cinema-palácio, rostos apáticos, passivos, rostos de gente drogada com prazeres fáceis, de pessoas que sequer tinham a coragem de serem elas mesmas, mas que se paramentavam, imitavam, fingiam... Aqui mesmo nesta sala, pensou, os olhos fixos de um casal retardatário. Mas não vou pensar, repetiu. Faria da mente uma tábula rasa para depois aceitar, num tolerante quietismo, tudo o que viesse."

"Seus movimentos eram ditados pelo hábito, não pelo sentimento. O que teria feito todos aqueles anos?"

"Estavam ali poesia e passado, trancados naquela bela cabeça de efebo grego que os anos tinham encanecido. Por que não forçá-la a abrir-se, a partilhar os seus tesouros? O que haverá de errado com ele, pensou, enquanto respondia as perguntas habituais de um inglês inteligente sobre a África e seus problemas. Por que ele não se deixa ir, não se derrama? Por que não puxa a corrente do chuveiro? Por que tem tudo lá dentro, a sete chaves, fechado e refrigerado? Porque é um sacerdote, um traficante de mistérios, pensou, sentindo a frigidez do outro, esse guardião de belas palavras."  

terça-feira, 5 de julho de 2011

Cê cresce cê percebe cê cresce

Uma coisa boa eu tirei de tudo isso. E o tudo fica guardado comigo.

Cê percebe que cresce, dentre outras coisas, quando começa a lidar diferente com a dor. Quando eu era mais novinha, fazia um escândalo, esperneava, batia porta, me afogava em fatalismos, a vida tinha acabado mas, ao mesmo tempo, eu fugia do luto, estendendo a coisa ao máximo. Era legal sofrer. Era tipo falar serviço. Quando você fala "daqui a pouco te ligo, tô no serviço", num é tão adulto, tão legal, no começo, por menos que o seja de fato? Sofrer é assim. Daqui a pouco a gente marca de sorrir, tô sofrendo agora.

Hoje deitei no banco do carro, na garagem de casa e fiquei ali, de peito aberto, dilacerado. Sem nenhum esforço em fechá-lo ou curá-lo. Alguém tem morfina, por favor? Não, não, deixa aqui, deixa quieto, muito obrigada. Sem drama, sem lágrima, sem loucura nenhuma. Porque eu sei que passa. É só esperar que passa. Sem desespero. Des-esperar é um não-esperar, já perceberam? Espero. E sei que vou esperar muito mais, mas tão diferente agora. Deixei o tempo fazer seu trabalho enquanto imaginava o ferimento, caso minha dor fosse externizada. Como um tiro no peito? Mas eu não sei como é um tiro no peito. E eu imagino uma coisa assim aberta, estrebuchante, bem feia, sangrenta e vermelha. É? Nem sei se quero saber. Menos pela imagem do que pelo modo com que posso descobrir isso.

Depois de tocar a discografia inteira de Los Hermanos no som do carro, melhorou, passou. Agora era só esperar o dia seguinte pra fazer tudo de novo, até não voltar mais. E não volta. Sabe velho quando você vai visitar? Que sai no meio da visita pra tirar um cochilo? Ele sai que ele sabe que a visita vai embora! Penso a dor como visita que é: quando novos fazemos de tudo pra dar atenção, mesmo quando não aguentamos mais. Depois de velhos... que se foda. 

É. Penso assim, cê percebe que cresce quando todas coisas vão perdendo a importância pro tempo (que cê cansou de perder pra elas).