terça-feira, 11 de novembro de 2008

Hoje eu enxergo diferente determinados erros. Não meus.
Mas de pessoas a minha volta que, sem querer ou querendo, acabaram por me prejudicar além delas próprias com as suas falhas.
Não é uma questão de perdoá-las ou deixar de perdoá-las. Não to aqui pra distribuir perdões louváveis. Ou, no mínimo, retardatários.
É mais uma questão de humanidade.
Eu reconheço a humanidade delas, agora.
Por mais que tenham me parecido – e até mesmo sido – tão baixas, sujas e animalescas com seja lá o que foi que aprontaram. Foram incomodamente humanas. Eu me reconheço, hoje, nelas.
Me olho no espelho e é só o que vejo.
Não reconheço, porém a minha humanidade nisso. Só a baixeza e a sujeira que sai dela.

Errar tentando acertar é muito bonito.
Extremamente poético.
E uma puta de uma sacanagem!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pelas ruas da cidade I

Ou - enquanto eu não quero falar da minha vida, falo das alheias.

De unhas e lábios vermelhos. De barba mal-feita. Os dois saíram do metrô, lado a lado. Não tinham pressa. Nem assunto. Os lábios vermelhos fumavam. A barba terminava - ou começava, depende do ponto de vista - em um par de fones de ouvido. Dois pares de óculos escuros brilhavam. O jeans, às vezes, passava a frente do vestido em passos mais largos. Como eu sabia que estavam juntos? Eu simplesmente não sabia. Eu inventava.


Faço isso com as pessoas que passam na rua. Dou-lhes uma vida minha, nova, provavelmente diferente das que levam. Só pra respirar o prazer de ter amores inventados. Não há liberdade maior do que essa. Quem escreve, sabe...


Mais cedo haviam brigado por causa da mulher que trabalhava com ele. Porque sempre achei que vermelho combinasse com ciúme. Mais tarde iam jantar, a contragosto, com o pai dela. E eu sempre lamentei a barba raspada para eventos como esse. Enquanto isso, o mundo lá fora continuava. Vulcões explodiam. Pessoas passavam fome. Borboletas encerravam a vida de lagartas.


Nenhum dos dois, entretanto, percebia, encerrados num mundo diferente. Num mundo em que, no final das contas e no final do dia, só os dois moravam. Onde o vermelho ficava marcado na pele lisa, cheirando à loção pós-barba. O cigarro, no cinzeiro. Os fones de ouvido, na mesa da sala. Os óculos escuros, no armário. O vestido de um lado. O jeans do outro. Enfeitando o chão do quarto.