Me apertou uma saudade tão grande de uma das minhas irmãs que me doeu duro mesmo. Encontrei-a numa das fotos das que eu tenho jogadas aqui, em todo lugar, por não ter arrumado onde colocar e ficar mudando de gaveta pra estante, pro espaço em que eu não vá usar, toda hora.
Linda. Olhando pra câmera com um sorriso sem dentes, de sobrancelha e bochechas levantadas.
Pra quem tem três irmãs, falar só de uma ou mais de uma sempre provoca ciúme. Ou suscita dúvidas – e certezas - de quem é a preferida. Não tenho preferida. Cada uma simplesmente é o que é na minha vida. E numa combinação milimétrica e perfeitamente desenhada.
Me são como ar, luz e calor. Uma me desafoga, me faz respirar quando eu tenho aquela sensação de não estar conseguindo, tipo aquele choro que a gente tem e não consegue parar nem pra falar, nem pra puxar o ar pra dentro, me salva. Outra me guia sem que eu peça, me liga do nada pra me mostrar o caminho, e me dá a mão para seguir comigo, mesmo que quietinha. E outra, ainda, me protege, me esquenta, me acolhe, me é como um abraço de Deus.
E ao mesmo tempo todas revezam de papel sempre que eu preciso – e precisar.
Mas é que essa da foto tem uma coisa que é uma coisa que mexe comigo.
Porque é uma coisa que é de mim e que sou eu.
Sinto que posso sentir todas as dores dela por mais que não sejam as mesmas que as minhas. Embora eu saiba que um dia já foram e que hoje, talvez, nem tenha havido nenhuma.
Eu sinto. Mesmo assim.
Eu sinto a minha irmã.
E é por isso que praticamente só dela eu já escrevi nessa vida.
Ei sinto que ela tem essa necessidade de que eu escreva por ela.
Porque simplesmente ela me olha nessa foto com os meus olhos, os meus anseios e as minhas tristezas.
E eu acho que é preciso descrevê-los. E ser assim, há quilômetros de(o) chão, se não o ar que lhe desafoga, a luz que lhe guia ou o calor que lhe abraça, a letra que lhe falta.
O que ela não escreve.
O que eu não falo.
E o que o amor não faz nem uma coisa, nem outra
só origina e esquece.
Deixa de lado.
Deixa pra gente.
domingo, 25 de outubro de 2009
sábado, 17 de outubro de 2009
Aconteceu
Ela tinha os lábios e as unhas pintados de vermelho. A música alta. O vestido recém-tirado do corpo, estirado na cama.
Lavou o rosto sem tirar a maquiagem. Soltou o cabelo. Apoiou as mãos na pia e, sem se secar, teve o rosto mais molhado ainda pelas lágrimas que insistiam em rolar por mais que as tentasse manter sob controle.
Evitou o espelho.
Decidiu se evitar por muito mais tempo.
Não se reconheceu mais.
Lavou o rosto sem tirar a maquiagem. Soltou o cabelo. Apoiou as mãos na pia e, sem se secar, teve o rosto mais molhado ainda pelas lágrimas que insistiam em rolar por mais que as tentasse manter sob controle.
Evitou o espelho.
Decidiu se evitar por muito mais tempo.
Não se reconheceu mais.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Monólogo entre amigas
'Você é luz, é raio estrela e luar.'
Cerveja. Cigarro. Confissões.
E um discurso.
- Você é aquela foda de mais um dia dele tentando esquecer um amor, e daí?
Você é menos bonita do que ele fala a semana inteira só porque enquanto te chama de linda, ele vê um rosto muito mais bonito que o seu a lhe perturbar os pensamentos, e por isso se esforça tanto em se convencer de que você é bonita como ela? E nunca se convence?
Você é pior porque ele vai se esquecer em questão de minutos qual é a sensação de ter você nos braços, sendo que a te der a outra não é esquecida nem quando ele fecha os olhos, nem um minuto sequer, nunca? Nem quando ele está com você?
Você é menos desejada só porque ele faz isso desejando outra?
Só porque ele faz isso querendo afetá-la quando não tem mais o afeto dela?
Você é fácil porque em um telefonema com voz chorosa e filha da puta, ele te larga e te esquece por dias? E dias, e dias, enquanto ela estiver ali ainda? E depois, quando ela vai embora, ele te procura e te acha?
Você vale menos só porque ele não sente nada quando está com você, e está com outras ao mesmo tempo, e te ignora sempre que se cansa de fingir - e fugir?
Talvez sim. Talvez não. Talvez nada.
Nada é o que você é pra ele.
Nem bonita. Nem melhor. Nem desejada.
Ara, menina!
Ser só uma foda é foda.
Mas e daí?
E daí se você acredita nos elogios?
E daí se você sabe que é por ela e não se importa?
E daí se ele mente?
E daí?
Todo mundo é feliz com uma mentira, na vida.
Melhor ser alegre que ser triste, poeta?
Não importa a circunstância.
Não importa a força com que você tenha que fechar os olhos pra isso.
Os sonhos aparecem daí, né.
E DA-Í?
Você é menos feliz ou menos mulher por causa disso?
Ou você é simplesmente menos feliz e menos mulher por não ser a mulher dele? -
Sem música mais.
Corta. Conta.
E uma noite de sono tranquilo por me saber mulher de alguém.
Cerveja. Cigarro. Confissões.
E um discurso.
- Você é aquela foda de mais um dia dele tentando esquecer um amor, e daí?
Você é menos bonita do que ele fala a semana inteira só porque enquanto te chama de linda, ele vê um rosto muito mais bonito que o seu a lhe perturbar os pensamentos, e por isso se esforça tanto em se convencer de que você é bonita como ela? E nunca se convence?
Você é pior porque ele vai se esquecer em questão de minutos qual é a sensação de ter você nos braços, sendo que a te der a outra não é esquecida nem quando ele fecha os olhos, nem um minuto sequer, nunca? Nem quando ele está com você?
Você é menos desejada só porque ele faz isso desejando outra?
Só porque ele faz isso querendo afetá-la quando não tem mais o afeto dela?
Você é fácil porque em um telefonema com voz chorosa e filha da puta, ele te larga e te esquece por dias? E dias, e dias, enquanto ela estiver ali ainda? E depois, quando ela vai embora, ele te procura e te acha?
Você vale menos só porque ele não sente nada quando está com você, e está com outras ao mesmo tempo, e te ignora sempre que se cansa de fingir - e fugir?
Talvez sim. Talvez não. Talvez nada.
Nada é o que você é pra ele.
Nem bonita. Nem melhor. Nem desejada.
Ara, menina!
Ser só uma foda é foda.
Mas e daí?
E daí se você acredita nos elogios?
E daí se você sabe que é por ela e não se importa?
E daí se ele mente?
E daí?
Todo mundo é feliz com uma mentira, na vida.
Melhor ser alegre que ser triste, poeta?
Não importa a circunstância.
Não importa a força com que você tenha que fechar os olhos pra isso.
Os sonhos aparecem daí, né.
E DA-Í?
Você é menos feliz ou menos mulher por causa disso?
Ou você é simplesmente menos feliz e menos mulher por não ser a mulher dele? -
Sem música mais.
Corta. Conta.
E uma noite de sono tranquilo por me saber mulher de alguém.
sábado, 5 de setembro de 2009
Running in circles, chasing tails, coming back as we are...
A inocência sempre se perde. A realidade é suja, é lasciva. É aquela putinha da esquina por quem tu passas e pensas que não vale nada, e ergues o rosto, e lavas as mãos, e desvias a cara, e fazes graça, e sabes-se uma versão humana melhorada. És?
Te dê tempo. Por ti também escorre lama. Te olha no espelho, e perceba que animalesco. É uma grossura, um desassossego. Erras. E tu nunca voltas ao que era, nem ao que poderia ter sido.
Não é justo; pelo contrário, é humano.
No fundo somos tudo um bando de bosta. Que se julga e se condena, e se acha no direito.
Ah, inocência. Uma vez rompida, és todas as outras corrompido.
Não adianta.
Não te lavam. Não te limpam. Não te desinfetam, nunca.
Ninguém é bom moço a vida inteira, menino.
Não espero isso.
Ou desejo.
Só não te acostumes com os colos e com as lágrimas.
Não vão passar a mão na tua cabeça pra sempre.
A inocência te perde.
E enquanto dependeres da caridade dos outros, jazerás, perdido.
Te dê tempo. Por ti também escorre lama. Te olha no espelho, e perceba que animalesco. É uma grossura, um desassossego. Erras. E tu nunca voltas ao que era, nem ao que poderia ter sido.
Não é justo; pelo contrário, é humano.
No fundo somos tudo um bando de bosta. Que se julga e se condena, e se acha no direito.
Ah, inocência. Uma vez rompida, és todas as outras corrompido.
Não adianta.
Não te lavam. Não te limpam. Não te desinfetam, nunca.
Ninguém é bom moço a vida inteira, menino.
Não espero isso.
Ou desejo.
Só não te acostumes com os colos e com as lágrimas.
Não vão passar a mão na tua cabeça pra sempre.
A inocência te perde.
E enquanto dependeres da caridade dos outros, jazerás, perdido.
sábado, 22 de agosto de 2009
Pepê e seu jeito estranho de fazer as coisas
Parte 3
Mais estranho ainda do que seu jeito de fazer as coisas, era o seu jeito de pensar as coisas. Uma vez, Pepê entrou no chuveiro de óculos. Foi tomar banho e se esqueceu de tirá-los, como se aquilo fosse uma extensão do seu corpo. E não era?
O dia estava frio. A água estava quente. As lentes logo começaram a embaçar e ele passou a ver tudo branco e esfumaçado. Sequer pensou nos óculos. Usava óculos? Só lembrava se alguém reparasse ou se usasse o espelho. Coisas, que por sinal, não gostava muito. Nenhum motivo especial, entretanto.
Já começou a pensar que estava tudo se acabando. Pronto. Era o fim. E era assim que ele vinha. Como a cegueira de Saramago, o apocalipse, enfim. Toda sua vida se extinguindo num banho, numa terça-feira de Hairspray na televisão, levada por um mar de espuma branca pelo ralo.
Até que começou a sentir o suor onde descansava a armação, e percebeu do que se tratava. Tirou os óculos. E o mundo desfocado e quase indistinguível fez sentido, pela primeira vez na vida.
Leia a Parte 1 aqui
E a Parte 2 acolá
Mais estranho ainda do que seu jeito de fazer as coisas, era o seu jeito de pensar as coisas. Uma vez, Pepê entrou no chuveiro de óculos. Foi tomar banho e se esqueceu de tirá-los, como se aquilo fosse uma extensão do seu corpo. E não era?
O dia estava frio. A água estava quente. As lentes logo começaram a embaçar e ele passou a ver tudo branco e esfumaçado. Sequer pensou nos óculos. Usava óculos? Só lembrava se alguém reparasse ou se usasse o espelho. Coisas, que por sinal, não gostava muito. Nenhum motivo especial, entretanto.
Já começou a pensar que estava tudo se acabando. Pronto. Era o fim. E era assim que ele vinha. Como a cegueira de Saramago, o apocalipse, enfim. Toda sua vida se extinguindo num banho, numa terça-feira de Hairspray na televisão, levada por um mar de espuma branca pelo ralo.
Até que começou a sentir o suor onde descansava a armação, e percebeu do que se tratava. Tirou os óculos. E o mundo desfocado e quase indistinguível fez sentido, pela primeira vez na vida.
Leia a Parte 1 aqui
E a Parte 2 acolá
domingo, 9 de agosto de 2009
Uma lolita em minha vida
Não foi uma questão de simples amadurecimento.
Sim, eu tive que sacrificar uma menina para que nascesse uma mulher.
Mas a menina não fui eu.
Foi a sua.
Acontece que ela era tão bonita, tão espirituosa. Mas tão novinha.
E eu ainda gostava de você. A única vantagem que eu podia ter sobre ela era ser mais mulher. Eu tinha que ser. E era.
E muito. Me ria das inexperiências dela. Das coisas infatins que ela fazia, das palavras recém-nascidas.
Foi uma espécie de papel que a vida me deu e ao qual eu me agarrei com tanta força, que acabei encarnando, de uma vez por todas, com o tempo. De repente não consegui mais me ver ou me permitir menina. "Colo? Me faz feliz? Me faz feliz, por favor?"
Nunca mais.
Sim, eu tive que sacrificar uma menina para que nascesse uma mulher.
Mas a menina não fui eu.
Foi a sua.
Acontece que ela era tão bonita, tão espirituosa. Mas tão novinha.
E eu ainda gostava de você. A única vantagem que eu podia ter sobre ela era ser mais mulher. Eu tinha que ser. E era.
E muito. Me ria das inexperiências dela. Das coisas infatins que ela fazia, das palavras recém-nascidas.
Foi uma espécie de papel que a vida me deu e ao qual eu me agarrei com tanta força, que acabei encarnando, de uma vez por todas, com o tempo. De repente não consegui mais me ver ou me permitir menina. "Colo? Me faz feliz? Me faz feliz, por favor?"
Nunca mais.
Ei, você aí...
Sou eu quem vai te fazer feliz, agora.
Sou eu quem vai te fazer feliz, agora.
Eu.
E foi como aconteceu. Foi assim que eu cresci. Não é uma história bonita. Mas a nossa história não é bonita. Nenhuma minha é. Eu sou humana demais pra isso. E de um tipo de gente, o pior. Quantas dessas pessoas tem histórias bonitas pra contar? Faço coisas pelos motivos errados a todo instante. Numas vezes dá merda. Noutras bem raras, não. E aí, sem querer e de repente, se acerta. Não exatamente em nome de um sentimento bonito ou de uma experiência dolorosa. Mas porque acerta. Quando menos se espera. E talvez menos precise. Quando uma lolita estraga seus planos e você é capaz de pensar “por que não?”.
-é menos nobre quando se é por acidente?
Pode ser.
Mas não deixa de ser.
É a vida.
E se eu estiver errada sobre isso, viver faz o maior sentido.
E foi como aconteceu. Foi assim que eu cresci. Não é uma história bonita. Mas a nossa história não é bonita. Nenhuma minha é. Eu sou humana demais pra isso. E de um tipo de gente, o pior. Quantas dessas pessoas tem histórias bonitas pra contar? Faço coisas pelos motivos errados a todo instante. Numas vezes dá merda. Noutras bem raras, não. E aí, sem querer e de repente, se acerta. Não exatamente em nome de um sentimento bonito ou de uma experiência dolorosa. Mas porque acerta. Quando menos se espera. E talvez menos precise. Quando uma lolita estraga seus planos e você é capaz de pensar “por que não?”.
-é menos nobre quando se é por acidente?
Pode ser.
Mas não deixa de ser.
É a vida.
E se eu estiver errada sobre isso, viver faz o maior sentido.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
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