terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Os últimos suspiros de vida de doismileoito

Tem uma pessoa que me desperta extremos nessa vida.
Ao lado de quem eu fui feliz, fui miserável.
Fui grande. Fui medíocre.
Do céu ao inferno em minutos.
O ano de 2008 foi assim pra mim.
Como ela.
Talvez por isso esteja tão difícil ter de me despedir dele.
Mesmo sabendo... mesmo sabendo que eu me dou melhor em ano ímpar.

Ainda assim, 08 dá seus últimos suspiros.
Acredito em quem disse que o Ano Novo é só um urubu pintado de verde.
Por isso não faço promessas.
Nem me simpatizo com simpatias.
Só sigo o fluxo - coisa que, por sinal, me foi muito útil nesse ano em São Paulo.

Mas eu sei que umas coisas serão diferentes assim que aquele relógio marcar meia-noite amanhã. Uma hora depois para mim.
Não porque tenho resoluções de Ano Novo. Mas sim porque tenho resquícios de Ano Velho.

Mudei de cidade.
Só acordei tarde.
Conheci pessoas grandes.
Conheci descartáveis.
Achei nova família querida.
Valorizei como nunca a de sempre.
Troquei lâmpada, fiz almoço, paguei contas.
Tive calo engasgado na garganta de tanto calar.
Certezas me doendo a cabeça de tanto questionar.
- erros grotescos a me acordar de madrugada.
Fiz as malas mais de 20 vezes e aprendi como diminui-las, ou diminuir as saudades.

E, depois de todos esses 364 dias e algumas horas, sei que serei completamente outra quando tudo isso se acabar.

Porque fui de extremos a extremos e agora sei como me equilibrar.
O ano dos extremos, assim como alguém, soube como me ensinar.


Boas Festas a todos.
E nunca percam a fé em um ano ímpar!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Hoje choveu uma cor bonita em Campo Grande
Eu estava sozinha em casa.
O telefone tinha acabado de desligar.
Já o sol eu não sei quem desligou.
E o sal desceu dos olhos logo depois.
Pensei que nunca mais fosse parar de chorar.
Quem nunca perdeu um grande amor?

domingo, 14 de dezembro de 2008

O meu soneto da separação

Ó, pra começar, terminou. Chega. Não tem mais choro nem vela. (Me lembrar de procurar o porquê dessa expressão, depois).

Essa história não se lê mais como uma pausa pequena pra respirar. Nem como uma pausa gostosa pra suspirar e especular o que vem depois. Se lê como o último ponto final.

Não é vírgula.

Não são reticências.

É ponto final.

(...)



Depois que ninguém se intromete mais.

Não quero analisar. Não quero discutir. Não quero responder como eu estou essa manhã em particular.

Não quero contar nada pra mais ninguém que parecer confiável ou receptivo. Não insistam. Não boto a mão no fogo por mais ninguém, nessa vida.

O bom de se queimar bastante é que, uma hora, você aprende a brincar.

E saber brincar é reconhecer que existem regras. Regras que, uma vez quebradas, não adianta requebrar pra se safar... Você roda.

Roda. Roda. Roda. Sem sair do lugar.



... Até sair.


Dizem por aí que o mais difícil é o primeiro passo (8)

(...)

O mais difícil é o último.
Não tem espaço. É o fim da linha.
O mais difícil é parar de rodar.
E, tonta, achar o caminho.
E, perdida, saber as dimensões do chão.

(Ele ainda existe?)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

"Afinidade é um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e ao depois. A
afinidade não é o mais brilhante, mas o mais sutil, delicado e penetrante dos
sentimentos. É o mais independente...

Isso não é meu, mas as próximas palavras o são. E do fundo do coração, cheias de mimimi, como não podia ser diferente!

Porque eu cheguei em São Paulo contrariada. Fiz matrícula no noturno mais contrariada ainda. E fiquei os primeiros meses em terras paulistas, sim, contrariada. Ontem, voltei pra casa desse jeito. Das duas, uma (ou das duas, as duas): eu gosto muito de me contrariar ou me surpreenderam na metade do caminho que, inevitavelmente, foi o meu escolhido.

Que quando eu li o "Campo Grande" no aeroporto, já não senti aquele alívio que outrora sentia. Muito pelo contrário. Me despertou uma saudade dos momentos vividos, uma vontade dos novos, uma raiva em já ter voltado, um medo de logo, logo, ser esquecida. E quando peguei o mesmo caminho de uma vida inteira pra casa, já estranhei ser ele o caminho de casa. Estranhei não ser a Afonso Pena e não a Heitor Penteado. Estranhei o calor insuportável. Estranhei o som que tocava no carro.
Foi só botando os pés em casa e sendo recebida pelos olhinhos azuis mais encantadores desse mundo "você vai ficar pra sempre dessa vez, Papau?" pra eu me sentir em casa, novamente.

Porque, sim, Campo Grande é minha eterna casa. Meu ninho. Não posso negar o tanto que eu gosto disso aqui. O tanto que eu gosto dos caminhos, da Afonso Pena, das noites "ensolaradas". Mas hoje... alguma coisa acontece no meu coração...

E culpa disso parte dessa afinidade.
Que eu já vi e vivi afinidades com as mais diversas pessoas que, por sinal e sempre, ainda rodeiam o meu ciclo de amizades. Mas uma afinidade assim tão grande entre tanta gente diferente de uma vez só, só podia dar nisso.

Hoje me perguntaram como era a minha sala.
Simplesmente a minha sala foi a melhor coisa que me aconteceu, agora, nesse momento, em toda a minha vida.

... Não importa o tempo, a ausência, os adiamentos, as brigas, as
distâncias, as impossibilidades. Quando há afinidade, qualquer reencontro retoma
a relação, o diálogo, a conversa, o afeto no exato ponto em que foi
interrompido.."

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Hoje eu enxergo diferente determinados erros. Não meus.
Mas de pessoas a minha volta que, sem querer ou querendo, acabaram por me prejudicar além delas próprias com as suas falhas.
Não é uma questão de perdoá-las ou deixar de perdoá-las. Não to aqui pra distribuir perdões louváveis. Ou, no mínimo, retardatários.
É mais uma questão de humanidade.
Eu reconheço a humanidade delas, agora.
Por mais que tenham me parecido – e até mesmo sido – tão baixas, sujas e animalescas com seja lá o que foi que aprontaram. Foram incomodamente humanas. Eu me reconheço, hoje, nelas.
Me olho no espelho e é só o que vejo.
Não reconheço, porém a minha humanidade nisso. Só a baixeza e a sujeira que sai dela.

Errar tentando acertar é muito bonito.
Extremamente poético.
E uma puta de uma sacanagem!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pelas ruas da cidade I

Ou - enquanto eu não quero falar da minha vida, falo das alheias.

De unhas e lábios vermelhos. De barba mal-feita. Os dois saíram do metrô, lado a lado. Não tinham pressa. Nem assunto. Os lábios vermelhos fumavam. A barba terminava - ou começava, depende do ponto de vista - em um par de fones de ouvido. Dois pares de óculos escuros brilhavam. O jeans, às vezes, passava a frente do vestido em passos mais largos. Como eu sabia que estavam juntos? Eu simplesmente não sabia. Eu inventava.


Faço isso com as pessoas que passam na rua. Dou-lhes uma vida minha, nova, provavelmente diferente das que levam. Só pra respirar o prazer de ter amores inventados. Não há liberdade maior do que essa. Quem escreve, sabe...


Mais cedo haviam brigado por causa da mulher que trabalhava com ele. Porque sempre achei que vermelho combinasse com ciúme. Mais tarde iam jantar, a contragosto, com o pai dela. E eu sempre lamentei a barba raspada para eventos como esse. Enquanto isso, o mundo lá fora continuava. Vulcões explodiam. Pessoas passavam fome. Borboletas encerravam a vida de lagartas.


Nenhum dos dois, entretanto, percebia, encerrados num mundo diferente. Num mundo em que, no final das contas e no final do dia, só os dois moravam. Onde o vermelho ficava marcado na pele lisa, cheirando à loção pós-barba. O cigarro, no cinzeiro. Os fones de ouvido, na mesa da sala. Os óculos escuros, no armário. O vestido de um lado. O jeans do outro. Enfeitando o chão do quarto.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

EU NÃO SOU UMA MENINA COM UMA FLOR I

Quisera eu ser delicada como pétala, menina com uma flor pra quem Vinícius escreveu.
Não sou.

Sou, no máximo, uma menina com um espinho. Com muitos espinhos, diria quem quer que escrevesse. Isso é, se alguém se arriscasse a escrever sobre o pouco que inspira e sou eu.

Diria, então e em seguida, que os espinhos podem ser melhores que as flores, às vezes...
(Porque eu sou tão egoísta que preciso ficar por cima em todas elas.)
E explicaria que eles não saem por aí se despetalando com qualquer brisinha. Muito menos atraindo o bico intrometido de qualquer pássaro meia-tigela.

(Essa equiparação de ser melhor com ser mais forte e mais forte com menos vistoso foi a vida mesma que me ensinou, num desses momentos bêbados e gostosos - ou de puro uísque e desgosto.)

Mas, mesmo para uma menina com mil espinhos, ou dois ou um, eu tenho desses deslizes.
Me despedaço e desespero, de vez em quando. E atraio, principalmente quando sem querer, tudo aquilo que é bonito de tão triste.

Mas o espinho também, muito e além de tudo isso, machuca os outros em prol dele próprio e de tudo aquilo que protege. Aí até finjo que não sou egoísta! Ou percebo que devo ser uma espécie de egoísta com instinto materno. Porque deixo ele deixar de ser posse e passar a ser tudo aquilo que me rege, meu caminho.

Passo a ser espinho.

Assim

Dura. Bruta. Crua.

Arredia.

Arrancada.

E fim.


Não... Definitivamente eu não sou uma menina com uma flor. Não adianta!
Mas eu sou uma boa menina.
E mesmo que o espinho que carrego, sou e encerro, te fure e fira, deveras vezes, ainda assim sou a sua boa menina. Só sua!

Eu sei, e como sei, que você me queria assim, menina como flor, chorosa e delicada. Feminina e carinhosa. Doce frágil mulher apaixonada...
E queria que eu fosse sensível e meus olhos marejassem com qualquer coisa bonita que você me falasse. E que até nossas roupas, por esforço meu, combinassem.
Que me queria ligada a você todas as horas do dia. Que eu te acordasse de madrugada pra dizer que te amo, e me descabelasse se você chegasse atrasado.
Sei também que reclama da minha falta de ciúme, da minha independência de você e das minhas manias. E que fala mal dos meus amigos, do meu humor, no mínimo peculiar, e da minha selvageria.
Sei de tudo isso, mas...
Quer realmente saber mais verdades boçais?
Eu não sou nenhuma menina com uma flor. Só que você, meu querido... Você também não é nenhum Vinícius de Moraes!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Fazendo tudo de propósito - e fim.

Às vezes você tem que fazer aquilo que evita.

Levantar do sofá pra ir procurar o controle remoto. Sair da cama, com sono, porque tem hora pra chegar. Ligar para aquele parente distante pra dizer que se compadece da sua dor pela perda de mais um familiar.

Você evita ao máximo. Mas, uma hora, você faz.
Você vai até o fim porque você sabe que, mais cedo ou mais tarde, vai ter que acabar fazendo.

Disse anteriormente algo sobre se compadecer da dor alheia. Sim, porque você pode, sim, se compadecer da dor alheia. Mas nenhuma dor dói como a dor que dói na gente. Aquilo que chega a ser físico mesmo sem, de fato, o ser!

E é principalmente por causa dessa dor, mais do que qualquer outra coisa, que a gente faz, de uma vez, tudo aquilo que mais se evita fazer nesse mundo!

E o mais engraçado (e forte da raça humana) é que, às vezes, não é nem para amenizar essa dor, mas sim sabendo que vai encerrar-se nela, mais forte ainda, mas por estar em busa de algo maior, algo mais perene, que depende daquilo e que você bem sabe que está ali, em algum porto depois dela.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Tinha "Boa noite, Cinderela" no meu café-da-manhã!

Sabe quando as coisas tomam um rumo na sua vida e parece que você foi levada pra ele enquanto dormia? Daí, do nada, você acorda e tá tudo lá já. Todo caminho escolhido e percorrido já com suas conseqüências chegando que nem socos vindos do infinito – e com a força do infinito. (E você mal acordou!) Socos dos quais você nunca pode desviar. Socos conseqüenciais, cara! Ninguém se livra das conseqüências por mais que tente - e tentam a cada instante de desamor.

Daí você acorda meio atordoada, meio perdida, tentando entender como as coisas foram parar ali. Sim, é você mesma. O rosto é seu, o corpo é seu, as roupas são suas.

Daí você olha a sua volta, volta os olhos pras pegadas que deixou enquanto vinha e sim, os pés são seus, a jornada foi sua.

Mas aquilo ali não é bem o que você pensava, o que você decidiu. Que horas você decidiu por aquilo?

Você não se lembra como e quando, de fato, chegou ali. E o que é pior, o porquê. E o que é pior ainda, como voltar. Tem como? Você quer que tenha? Você vai, se tiver? E se não tiver?

E enquanto essas perguntas todas te atravessam fria e cruelmente, os socos não param. Eles não param, nunca. E você fica mais perdida, tão perdida, mas tão perdida que imobiliza. Nada move mais. Em nenhum lugar. Você não se lembra o que tem que fazer pra falar. Você sequer tenta desviar do que te bate. Acho que você meio que vira pedra, entende?

Daí você consegue fechar um olho e rezar pra que tudo aquilo não passe de um sonho mal sonhado.
E, de olhos abertos, e prece não-atendida, você vira pedra de novo.
Saca?

Então... foi justamente isso o que quis responder pra primeira pessoa que me perguntou como eu estava, hoje. Contentei-me com um muxoxo qualquer. Pedras não falam.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

abre aspas
Tenho cá duas meninas muito bem diferenciadas
Uma é fina e delicada, outra é grossa abrutalhada
Uma é torre bem guardada outra é porta escancarada
Uma é um anjo de candura, outra é bisca endiabrada

Tenho cá duas meninas muito bem diferenciadas
Uma pede leite quente, outra quer pinga gelada
Uma lê livros sagrados, outra faz pornochanchadas
Uma dança minueto, outra só dança lambada

Tenho cá duas meninas muito bem diferenciadas
Uma toma guaraná, outra vive embriagada
Uma dorme de pijamas, outra só dorme pelada
Uma é musa inspiradora outra é gata debochada

Tenho cá duas meninas muito bem diferenciadas.
Observo todas duas procurando entender
E percebo finalmente pra desassossego meu:
Cada uma é metade de uma soma que sou eu!
fecha aspas

(Beni Soares)

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A pergunta que não quer calar:

A vida é curta...

... Mas é longa o suficiente pra gente errar bastante
ou longa o bastante pra gente errar suficiente?

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Não tenho títulos para assuntos difíceis

Hoje eu quis escrever sobre coisas difíceis. As tais das coisas importantes que saem em jornais - ou não. Nunca tinha visto aquilo, antes... Enfim, tudo bem, eu fazia uma idéia daquilo. Mas não daquele jeito.

Assisti a um documentário sobre alguma escola secundária na África, uma das mais baratas da região, que custava cerca de 20 libras. Resultado: nem todos os que queriam podiam pagar por ela e não podiam entrar nas salas os alunos inadimplentes. Ficavam então ali, aos montes, como animais uniformizados, do lado de fora da cerca, aos olhos humilhantes de todo mundo que passava, enquanto as salas de aula, vazias, ministravam alguma coisa considerada digna aos que possuíam dinheiro.

Alguns chegavam a fazer furos na cerca dos fundos para conseguirem entrar escondidos e estudar. Para comer também, vai. Que seja. Fome de comida ou de sabedoria é tudo a mesma coisa. Dá tudo na fome de esperança que eles têm. Seja de um futuro melhor, seja de simples sobrevivência.

Os que guardavam dinheiro suado de algum emprego sujo ou mal pago para quitar o que deviam, ou pelo menos a metade do que deviam à escola, às vezes adoeciam, malária, tuberculose, aos montes.. e tinham que usar todo ele para pagar o tratamento, rápido. A cada 30 segundos uma criança morre de tuberculose na África. Nenhuma quer ser a próxima.

No começo, fiquei com raiva da diretora. Depois dos professores.
Depois compreendi.
Ninguém ali tem dinheiro, meu Deus.
Tudo que a diretora queria era poder pagar aos professores.
Ninguém ali pode se dar ao luxo de fazer caridade.
É bem isso. É bem assim.
Fiquei, então, com raiva do governo. Do mundo. Das utopias que rimam com justiça.
Depois compreendi.

Essa raiva é passageira.

Quando mudei de canal tinha uma senhora gastando 585 dólares em roupas pro cachorro.
Fiz as contas (Eu mesma! Tô sem celular!)
585 dólares em roupas pro cachorro colocariam cerca de 14 daqueles africanos na escola.

Essa raiva é eterna.

Ela sempre volta. No canal seguinte, no mês seguinte, na década segunite, que seja.

O mundo é assim. O homem é assim.
Eu sou assim. Eu gasto comigo 20 libras, 585 dólares, mais até, se deixarem. (Que minha mãe não leia isso)!
Tá todo mundo cansado de saber que todo mundo é assim.
Mas.. será que a gente tá tão cansado a ponto de não fazer nada? A ponto de sair topando com essa raiva insistente toda hora sem fazer nada?

Minha irmã vai fazer medicina.
Vai pra África, por um tempo. É fato.
Ela sempre teve essa idéia. Ela nunca mudou essa idéia. Ela já tem planejado.
Todo mundo lá de casa já sabe.

O que eles não sabem é que talvez eu acompanhe.
Pode ser viagem, pode ser fogo de palha, pode ser uma visão "ongueira" ridícula que não sensibiliza mais ninguém e ninguém mais quer saber.
Mas eu preciso fazer qualquer coisa.
Porque nem eu, nem niguém, temos o direito de julgar qualquer vida que cruza o nosso caminho, inclusive a nossa mesmo, simplesmente desprezível, $implesmente $em $entido.

Enquanto não curo o hiato criativo,

copio o que queria ter escrito
"Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre."
(Paulo Mendes Campos, O anjo bêbado, Sabiá, Rio de Janeiro, 1969, p. 105)

ou se todos eles são detalhes de uma só pessoa, são pedaços que eu pretendo juntar todos os dias, algum dia dessa minha aventura terrestre.
(Ana Paula Martinho Saltão, Não conseguindo ficar quieta, Mesmo sem criatividade, São Paulo, 2008, sem páginas - ainda!)

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

No meio do caminho tinha uma freira.

Hoje, no ônibus, tinha uma freira.
O ônibus lotou. Pessoas que iam andando preferiram entrar por causa da chuva.
O ônibus superlotou.
Mas ninguém sentou ao lado da freira.

Ela estava no corredor.
Talvez, se estivesse na janela, o assento seria ocupado no primeiro minuto.
Porque não era medo de se sentar ali, oras! Vejam bem, não estou aqui lhes dizendo que aquele hábito era uma doença contagiosa e nós meros preconceituosos mortais e, talvez por isso, tão medrosos, não quiséssemos encostar nele! - isso não existe. ;)

Acontece que alguém tinha que atrapalhar a freira se quisesse sentar.
Tirá-la dos seus devaneios - suas rezas? - e atrapalhá-la. Passar por cima, desconcentrá-la, desconcertá-la, talvez pisar em seu pé. Já pensou na tragédia? Independente de religião ou ideologia, aquela roupinha tem lá seu respeito, vai.

Eu não via muitas freiras nos tempos de meninice. E todas as que via (e já vi) eram velhas! Não sei porquê.
Não sei porque também, mas sempre que as via, quando criança, e elas olhavam direto pra mim, eu achava que elas estavam lendo, nos meus olhos, todos os meus pecados, e desviava o olhar, rapidinho! (Hoje, outras pessoas, hábitos e olhares fazem isso comigo. Mas eu não desvio mais, não! Perdi a noção do perigo.).

Fiquei pensando um pouco nisso. Lembrando daquilo. A chuva tava batendo tão bonita na minha janela... Quando olhei paro o lado tinha alguém atrapalhando a freira! Com direito a mochilada na cara e tudo mais. Mexeu-se, remexeu-se e se sentou. Não olhou pra mim. Nem percebeu que eu estava olhando. Riu alto para a mulher que o acompanhava, parada, em pé, no corredor. Riu sincero. Pra fazer aquilo, e rir ainda por cima, só podia ser louco! Só podia ser criança...

A freira olhou pra ele quando ele riu. E adivinhem? Ele desviou o olhar, tão rapidinho!
Talvez também estivesse achando que ela estava lendo seus pecados. Quem sabe.
Prefiro pensar que sim.

Prefiro pensar que o restinho do que eu fui, um dia, ainda sobrevive nos outros, já que não tem mais espaço em mim. Mesmo que esses outros sejam meros desconhecidos. Mesmo que nunca cruzem meu caminho...
Nem tudo que existe, cruza.
Mesmo que seja ilusão minha. Mesmo que seja bobagem.
Toda bobagem é bem-vinda.
No máximo, entra por um ouvido e sai pelo outro e ainda corre o risco de ser reaproveitada no futuro!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Confissão (des)necessária

Eu não dou ponto sem nó.
Nun-ca.

Eu não sei se você sabia.
Nem se devia saber.
Mas sabe como é..

Acordei com uma vontade de compartilhar pecados.


terça-feira, 23 de setembro de 2008

Truco no escuro

A lua pediu licença pras nuvens, ontem, e se apresentou pra mim. Com um sorriso. Como um sorriso. Cheio. Gordo. E eu, sincera e espontaneamente, não sei quanto tempo passei no meio da rua, parada, sorrindo-lhe de volta.
São pouquíssimas as coisas que têm esse efeito de roubar meus pensamentos e congelar o tempo no meu sorriso.
Pouquíssimas coisas.
E uma pessoa.


No fundo, todo mundo sabe o que fazer.
No máximo, é só um truquinho no escuro.

sábado, 20 de setembro de 2008

Resposta

Às vezes, eu me perguntava o porquê disso.
Hoje, sem querer, acho que sei. Acho que sinto.
Me respondo. Te explico.
Isso... Isso que nasce disso e desemboca nisso, essa coisa assim, sem nome, sem nexo, que não me deixa em paz. Sem graça, sem começo, nem fim.

Dessa coisa, nessa coisa que é uma coisa assim, toda sem jeito, objeto, sujeito determinado, enfim.
Coisa. No âmago da palavra.
Que mexe tanto comigo.
Como se no nada que fosse encerrasse tudo. Eu digo.

Digo (aliás, não sou nem eu que digo. Sou eu que roubo de um cara que verbaliza, com invejável maestria, todas as minhas débeis filosofias de sarjeta e sentimentos de reles mortais) que essa coisa assim, isso:

R: É a solução de quem não quer perder aquilo que já tem
E fecha a mão pro que há de vir.
(8)

Digo que é assim. Isso.
Isso, assim:
Sem aspas mesmo.
Porque hoje sou eu, mais do que ninguém, que digo.

E sinto.

(sinto muito)
((em todos os sentidos))

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Sobre coisas difíceis

Tava pensando, sabe.. Eu não escrevo sobre coisas difíceis.
Às vezes, me pergunto, seriamente, que tipo de jornalista eu seria (serei?) se não pego o tempo que gosto de ter pra escrever e escrevo sobre o 11 de setembro, Obama x McCain, campanhas eleitorais brasileiras, grandes cinemas do mundo, choques culturais, acontecimentos revoltantes...
É claro que eu observo a tudo isso, que eu opino acerca de tudo isso, mas tudo isso... É o bastante?
Eu passo muito mais tempo analisando as relações humanas do meu dia-a-dia, principalmente aquelas efêmeras, que surgem num bom-dia ao taxista ou num dar o lugar do ônibus a uma grávida e logo depois se dissipam. Aquele laço que se cria e ao mesmo tempo em que se cria, se desfaz e, quase que imperceptivelmente, muda e molda cada lado dele. E ninguém escreve sobre isso.
Eu vejo e escrevo.
Eu vejo e escrevo com muito mais sensibilidade sobre cada mudança de humor do meu estado de espírito. Sobre a desconhecida moça que passa por mim cheia de sacolas, problemas e horários, enquanto eu vou de carro pro outro lado, cheia de pressa, divagações e cansaço. Sobre a estranha sensação de intimidade que surge durante uma rotina. Qualquer rotina. Qualquer intimidade.
Coisas assim. Coisas humanas demais. Coisas desapercebidas demais. Pros outros. Pros grandes. Pros que escrevem e sabem escrever sobre coisas difíceis.
Eu não sei escrever sobre coisas difíceis.
Talvez eu não sirva pra escrever sobre os grandes e mais importantes acontecimentos da Terra. Talvez eu não sirva nem pra escrever sobre os grandes e mais importantes acontecimentos de Campo Grande! Talvez eu não sirva pra ser jornalista. Minha coisa é outra. Soa superficial e é a coisa mais profunda do mundo. Soa inútil e é a base, o cerne e o âmago da questão de tudo.
É suor, lágrima, pele, sentimento, cheiro. É homem.

É mais difícil.


(Mas, se eu posso escrever sobre essas coisas mais difíceis ainda, nada me impede de, pelo menos tentar, me equiparar aos que escrevem sobre coisas difíceis.

Essas pessoas que eu admiro tanto. E sobre as quais, escrevo.)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Carta a Mãe ou Do meu aniversário de 18

Acordei ontem de manhã [aniversário de 2006] com o aperto que só uma falta enorme é capaz de fazer. Daquela sem motivo concreto, sem início ou princípio de fim, um grande buraco negro onde até cortar o dedo em papel dói menos. Falta da falta de oportunidades em determinadas circunstâncias. Falta de gente longe. Ou até mesmo de gente no quarto ao lado. Pessoas e fatos que perto ou distantes, às vezes, me faltam. Abri os olhos. E, você, Mãe, na minha cama a relembrar como em todos os anos: "Você não nasceu aindaaa... Só a uma hora da tarde!!". Na verdade, eu não tinha REnascido ainda, Mãe. Não mesmo.

Levantei com a angústia de que aquele falta fosse se fazer o dia inteiro... Fiz as obrigações diárias até a uma da tarde. Com gente medicando essa falta que insistia em abrir feridas, e pasmem-se senhores, com gente insistindo em abrí-las. Não renasci à uma, Mãe. Acho que dessa vez você deve ter ficado mais horas em trabalho de parto. Creio eu, aliás, que não fez isso sozinha, dessa vez. Que o dia foi se arrastando e a falta foi avançando... Mas foram te ajudando. Nos ajudando...

Aos pouquinhos, fui ficando capaz de perceber o quanto me faziam rir o tempo todo. E que esforços de horas antes com as minhas feridas, a longo prazo, serviram. Fui capaz de perceber que a falta ia crescendo... Mas também se transformando. Se transformando em cada sorriso que me davam e que me arrancavam. Cada abraço. Cada presente. Cada parabéns.

E no final do dia. Ah. No final do dia que pareceu mais demorar dois... Eu tava com esse sorrisinho que é uma delícia poder dar, pra cada um. Pra mim... Renasci agora, Mãe. Não sei a que horas, porém. Nem mesmo se de fato teve A hora, ou uma mistura de minutos incontínuos... E decisivos. E já dei meu primeiro passo aprendendo que essa falta que se faz doer e se transforma, na verdade, serve só para nos relembrar , assim como você faz com o seu "uma hora da tarde" sentada na minha cama, todos os anos, que oportunidade a gente é que faz no caminho que escolheu, e não elas que pulam para o caminho que renunciamos como achamos mais fácil pensar de vez em qdo. E que qto a essas pessoas que faltam... E faltam... E faltam... Estando do seu lado. Estando a km de distânica... Estão ali presentes. Nessa falta que dói e a gente sente.

Dentro.

Sempre.

Acordei hoje de manhã sem voz...

E com esse sorrisinho triplicado.

À sua parte nessa história, o meu muito obrigada.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

[observação um]

Não sei. Não posso afirmar se ele está realmente apaixonado. Ou se esse outro é o grande amor da minha vida. Não sei o porquê do grande. Ou se é o amor da minha vida ou não se é, oras. Grande, pequeno, maior, verdadeiro, mais interessante... Não há advérbios ou adjetivos para os amores da vida. Nem sequer o tal do único.

E se esse que estiver apaixonado, se de fato estiver, for o grande amor da minha vida. Ou simplesmente o amor dela. Um deles. Que seja. Me basta. Não estaria eu cometendo um erro ao ignorá-lo? Ao continuar com quem não seja. Ou quem já foi... E não mais é? (Era?) (Será?)

A vida era bem mais fácil quando simplesmente debutávamos da estupidez inerente à beleza da meninice.

E que história é essa de “se me ama de verdade”? Se eu te amo de verdade não tem disso. Não tem provas. E ninguém ama de mentira. Se é de mentira ainda assim é amor?

E amor? Acaba MESMO?

A estranha familiaridade...

Essa sim permanece. Mesmo quando a gente (in)acaba. É estranha porque não era pra se existir mais, sabe? E existe por algum motivo. Deve ser a prova de que o amor continua.. Isso se não é ela própria uma das coisas na qual o amor se transforma depois que abrem as cortinas e a vida real começa.

E por tabela? Se ama alguém por tabela?

Por tempo, sim. A convivência transforma muita coisa em amor. E mais delas ainda em desamor. Acho que destruir é mais fácil que construir. Minhas explicações vis me enojam. E me bastam. Sou rasa. Mas nem por isso cheia.

Queria mesmo é ter sido Vinícius. Homem, boêmio, amante. Casou-se 9 vezes. Nunca deixou de estar apaixonado.

Decerto que não nascemos para ser de um só. É a natureza. Nem por isso sou promíscua. Sou também meio assim, sedenta do apaixonada. Mesmo que ele esteja setenta vezes sete na mesma pessoa.

Mas se é possível amar com a mesma intensidade pessoas diferentes? Ah, sim, o é.

O problema é que não podemos dar a segurança do amor para todas elas... E ninguém gosta de caminhar na prancha, todo os dias, ouvindo o tic-tac do crocodilo lá embaixo, entende? (Esse foi sempre o meu conceito de insegurança. Desde que li Peter Pan a primeira vez, entendi.) Daí a gente sempre tem que escolher.

A vida é feita de escolhas.


A vida é uma ilha de escolhas, cercada de consequências por todos os lados e banhada em possibilidades.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

confessando: ou eu não sei rimar

Que eu tenho é alma de pobre.
Gosto muito mais de pizza de supermercado!

Uísque e champagne? Renego.
Eu gosto é de cerveja e dum bom bUteco!

soldado novo; velho de guerra

eu tinha muita coisa pra falar. muita coisa mesmo.
mas aí veio um ataque inesperado da saudade e a filha da putíssima me cortou a garganta.

não se ganha uma guerra contra a saudade.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

em construção II

E agora, ao ouvi-los, pelo corredor, apressados, sabia muito bem de quem se tratavam.

Ela abriu a porta do apartamento, sem bater, sem anunciar, avassaladoramente mal-educada e mesmo assim encantadora como ele logo percebeu ao virar o rosto para analisá-la, parada, sem graça, na porta. Não. Não vinha de vestido amarelo. Sequer vinha com os vestidos que adorava usar em dias quentes como aquele que se anunciava. Mas vinha com um par de argolas. Menor do que os que dantes tanto gostava, vinha, também com uma roupa de ginástica como se saída da academia. Ou nem ida, já que nem suava. Informal como propusera o tipo de conversa que gostaria de ter com ele, mesmo com a separação, mesmo com a distância que de todos os jeitos, mais ainda os separava. Os cabelos, mais curtos, no tradicional rabo-de-cavalo pendendo pra um lado.

- Não estou acostumada em tocar a campainha dessa casa.

Disse em tom de desculpas, por trás do sorriso rouco, ao perceber que entrara sem mais nem menos e o pegara desajeitado, jogado no sofá com os olhos para além de uma televisão que, parada num canal de esportes, mostrava um jogo de futebol qualquer.

Ela olhou para onde os olhos dele estavam antes de virar-se para olhá-la, enquanto ele se levantava rindo, dizendo que não se importava, que tinha podido ouvi-la, rápida e decidida pelo corredor. Aliás, aquilo o incomodara. Ela sequer titubeara, sequer hesitara em abrir a porta e encará-lo depois de anos. Coisa que ele, com certeza, faria em seu lugar. Sempre teve a impressão de que ela fosse muito mais forte que ele. Mesmo se ele endurecesse. Mesmo quando ela fraquejava.

- Assiste a futebol, agora?

Ele se virou para olhar o canal em que tinha parado durante o seu devaneio alimentado pelo troca-troca do controle remoto. Riu-se e se lembrou imediatamente do que já deixara escapar, um fato que fugia à pequeneza do detalhe e à eternidade de uma vida vivida em conjunto. A paixão dela por futebol. E o seu, digamos que, desprezo. Ambos claramente anunciados.

“Sua Nina é o homem da relação, meu caro.” Escutara tantas vezes os amigos dizerem quando ela assistia aos jogos com eles. "Não deixa essa escapar!"

Deixara.

Que é a vida senão uma aventura errante?

As pessoas não se cansam de me corrigir. Ou simplesmente me dizer que eu não sei como fazer determinadas coisas direito.

Desculpa, eu posso até não saber mesmo.
Mas quem foi que disse a elas que elas sabem?

Por mais experiência que elas tenham ou por mais que superestimem o que fazem, nem sempre essa segurança total de si mesmo traz algo de positivo junto. Sem querer você acaba que já não se contesta mais. Não digo que deva brigar contigo. A única pessoa com quem não brigo nem a pau é comigo!

Mas, admitam. Essas pessoas, mais do que ninguém, precisam de mim.

Precisam que eu face as coisas diferente de como elas fazem para que aprendam a apreciá-las ao invés de julgá-las indelicadamente.

Estou me sentindo assaz num comercial da coca-cola, agora. Mas é verdade. Talvez se tentássemos fugir um pouco mais dos julgamentos, as coisas seriam mais livres, e não há absolutamente nada como a liberdade. - Perguntem as pessoas que não a tem -.

Perguntem a elas, que se prendem tanto à noção de que como fazem é o certo que acabam por perder os melhores erros da vida delas: eu e minhas bobagens.

;D

Expressionando

Acabei de escutar o Jô Soares falando "festa de arromba". Era alguma piada. Fiquei esperando pra ver como ela iria terminar, já imaginando o que seria. Não era.
Era até uma piada que eu já conhecia, mas o que me chamou a atenção mesmo foi o que eu pensei que ele falaria sobre isso. Aquilo que, pela primeira vez, passou pela minha cabeça acerca dela.

Ela, no caso, é essa expressão em si: de arromba.
Coloquei no Google, claro. - Hoje até a mãe se joga no Google. -
Não achei bem o que eu queria.

Quão feia essa expressão se parece.

- Pai, vou a uma festa de arromba.

A única coisa que eu consigo pensar agora é "E vai ser arrombada por quem?"

Parece que a festa é justamente disso. De arromba.
Parece justamente que se trata de arrombamentos alheios e variados ao ritmo de funk e banhados no álcool.

As coisas nunca mais serão as mesmas ;p

In memorian

Tem coisas que só de lembrar, pode nem ser de todos os detalhes, ou das mínimas feições, trazem por companhia aquela ânsia. Aquela necessidade contida de rasgar a lembrança como se foto, dessas que a gente pode deixar em mil pedaços até não reconhecer mais. Fato é que eu acredito na perenidade da memória, (in)felizmente. Não de todas as coisas. Mas das principais, ou das que pareciam insignificantes até você perceber que não são mais - nunca de fato o foram.
E outra... Mesmo que a foto ou a lembrança se tornem irreconhecíveis, você não vê mais com a mesma claridade aquilo, mas sabe que aquilo ainda existe. Ainda respira, se alimenta, vive e se reproduz na sua cabeça dia após dia. Sem morte.
Excrucitante.
Às vezes podem até ser confundidas com saudades. Ou deixar saudades. Mas é bem diferente: "Saudade é um pouco como fome. É um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida." Isso é mais como um vômito.. Tão urgente quanto, mas com uma diferença vetorial importantíssima.
Saudade a gente é obrigado a engolir.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

em construção I

Sim. Era assim. Como se o corpo dela fosse todinho escrito em braile e tivesse sido, por suas mãos, tantas vezes traduzido, que ele o tinha decorado. Sabia de cada palmo, cada cicatriz, cada pinta dele. Sabe quando acontece de acabar a luz da casa da gente e mesmo no escuro, sabermos onde estão as coisas, a que distância exatamente devemos virar ou subir um degrau? Então... Nunca se sentia perdido no corpo dela, por mais força com que fechasse os olhos, por mais no escuro que se encontrasse.

E é. Era onde se encontrava, agora. Há anos que não a via e não existia escuro maior que esse, mas, mesmo assim, vez ou outra, contra tudo e contra todos – e contra ele e contra ela – a desenhava. Perfeitamente em cada detalhe. E com o mesmo deleite com o qual descobrira pela primeira vez aquele corpo todo novo, todo seu, vulnerável.

Há uma música bonita, a preferida do pai dela, que diz que os detalhes acabam sumindo na longa estrada, aquela que transforma o amor em quase nada. Mas ele discordava disso. O amor podia sim virar quase nada. Podia, aliás, virar nada, mas os detalhes... Eram justamente os detalhes que ficavam!

O jeito com que ela mordia o cabo da escova de dentes, antes de escová-los, para poder amarrar o cabelo, impedindo que ele caísse na pia na hora de cuspir a pasta, e ficava tentado conversar com ele com aquele cabo na boca, dizendo palavras inteligíveis enquanto ele, deitado na cama, assistia a televisão, concordando com a cabeça sem entender nada. E em como acordava na manhã seguinte, primeiro que ela, e ficava olhando as marcas daquele sorriso torto na escova dela, antes de pegar a sua.

As sobrancelhas temporariamente despenteadas quando passadas suas mãos pelo rosto indo até a nuca, num daqueles momentos de cansaço nos quais ele a pegava no fim do dia, sentada na cozinha anotando mais uma receita, naquele seu vício de reescrever todas as obtidas com as amigas que julgava prendadas, ou no verso dos rótulos de leite condensado.

De como cantarolava “ciranda da rosa vermelha” quando ia lavar a louça. E ficava vermelha assistindo a algum pornô. De como dirigia com a mão no câmbio. E deitava de bruços para ir dormir, depois virava de um lado e dormia, enfim, do outro. O vestido amarelo que ele gostava. O par de argolas que ela gostava. A mania de fazer xixi antes do sexo, mesmo sem vontade. O rabo-de-cavalo que sempre ficava torto. O suspiro doce que acompanhava seus sorrisos. Seus passos pelo corredor. Da sala para o quarto. Da cozinha pra sala. Descalça, de salto, de meia. Sempre pôde ouvi-la passo a passo.

(...)

domingo, 15 de junho de 2008

O universo na casca do ovo.

Já conheço uma pessoa que conhece uma pessoa que eu conheço em São Paulo.

Eta mundinho besta, meu Deus.
Do tamanho de um ovo!

monossilabicamente é uma palavra de muitas sílabas.

Você é o meu monossilábico preferido.

Mas, às vezes, eu preciso que você fale, preciso que você grite, preciso que você declame ou se declare...

Muito vento move o moinho do tal do amor, sabe: conversas espontâneas, jantares românticos, sexo selvagem. Mas as palavras bem pensadas e dirigidas, meu querido, se você soubesse o poder que essas palavras têm... Não digo do poder para se conquistar um grande amor. Para isso você usou e abusou das pobrezinhas que me dá até pena. Foram xavecos, promessas, mentiras, e até algumas verdades. Falo é do poder que as palavras têm de mantê-lo.

O tempo passa. E você acha que cada vez mais precisa cada vez menos delas. Aí você as estoca na dispensa, as soca na estante e espera alguma ocasião especial para usá-las. Se esquece de que todo dia é, de certa forma, sem clichê ou falso otimismo, uma espécie de ocasião especial.

Ah! Ficou um texto muito cor-de-rosa, agora. E eu só queria que você falasse mais comigo, porra!

Melhorou.

x)

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dia D

Eu quero querer te ajudar, juro.
Mas tem horas em que me bate um egoísmo com relação a você.
E é nessas horas em que eu me pergunto se a gente tem que ficar junto:

Você com essa raiva que vem do nada.
Eu com esse egoísmo que vem com tudo.

terça-feira, 10 de junho de 2008


Papel, caneta e eu:


Praticamente um menage à trois.

Noites regadas a Nietzsche

Nietzsche está acabando comigo! (ou confirmando tudo que eu desconfiava e não queria que se confirmasse, o que talvez seja a mesma coisa)

Disse-me ele, ontem a noite, que toda ação é auto-dirigida.
Todo serviço é auto-serviço.
Todo amor é amor-próprio.

Não se ama pessoas. Ama-se sensações...
Não se ama o desejado. Ama-se o desejo.
E só.

Destruiu o altruísmo.

Acabou com o amor.

Casou-se com minhas crenças.

E ficou morando comigo.

sábado, 17 de maio de 2008

"A fé move montanhas" - e não só ela.

Existem coisas, na verdade acontecem coisas, na verdade pessoas fazem coisas, que me deixam possessa! Mas possessa mesmo.
E é realmente difícil não tomar nenhuma posição ou nenhuma atitude em momentos como esse. Eu sei que é o recomendável. Sei até que é o melhor mesmo: esperar a raiva passar... Mas, às vezes, se a gente dançasse conforme a música, quem sabe a gente não fizesse algo tão irreversível que, mesmo choramingando pra voltar às coisas como eram, depois, tempos depois, percebecemos que, por irreversibilidade, as coisas já estariam esquecidas e por si só resolvidas?
Tudo por conta de uma atitude que a gente tomou com raiva que em outro momento da vida não teríamos a coragem de tomar.
A raiva move montanhas.
Só é preciso ter cuidado para, no percurso, não quebrá-las.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

"Quando você deixa, até o amor acaba."

Eu não acredito mais que amor ou amizade, que é nada mais nada menos que um certo tipo de amor sem sexo, não acabem nunca. Acabam sim. Até os verdadeiros. E não tem essa história de que se acabou não era nem um nem outro. Era sim, caralho! Naquele momento, naquela vida, era, e quem vai dizer que não?
O que eu posso fazer se naquele tempo eu matava e morria por você e hoje eu num deixo nem de assistir novela pra te atender?
Vai me dizer que antes era o que? E que agora ainda o é?
Me poupe. As coisas têm um fim, sim. E não há nada que se possa fazer contra isso, depois que você deixa que acabem.

sábado, 26 de abril de 2008

" Olhares de Reprovação "

Não!! Nem ouse pousar esses olhares de reprovação em mim, hoje! Passe reto, finja que me desconhece, sequer me olhe! Que quando me olha com eles... Me faz criança... E daquela que fez coisa errada! A ponto de quase brotar desculpas pela minha boca. Ou um tom “sincero” de “não me castigue, por favor, que eu não vou fazer isso de novo!” acompanhado daqueles olhos de piedade. E é nesses meus olhos de piedade refletidos nos seus de reprovação, onde consigo ver que os meus já não podem mais te mentir... Abrem-se revelando que sou capaz até de te reconhecer razão, só para, inconscientemente, te ver feliz... ( ? ).
Abaixo o olhar em seguida, vencida. E vou. Mas comigo também vai a queimação na bochecha e o coração na boca, a impressão de que estou fazendo coisa errada e só você sabe! Como se, longe dos seus olhares, eu me enganasse deliberadamente, para que depois, só neles me encontrasse.. Percebe que é como se o único lapso de sinceridade que eu respiro, na falsificação calculada dos meus dias, surgisse sob os teus olhares de reprovação? Sob eles, que despem meus pensamentos mais íntimos e secretos para você. E que eu, pobre de mim, não consigo evitar... E onde graças a eles vem você, então, e conhece a minha realidade inventada... Os desejos que, intimamente, sustento. E depois que se faz de tudo isso conhecido, atrelado aos meus atos públicos, vem você e me reprova num olhar como se visse prazer em me reprovar (e demonstrar isso...).
E eu? Eu tomo você por consciência e acabo por concordar com tudo que você (mesmo que com o olhar) diz no final.. No final, onde só a gente conhece isso... ou se condena junto... ou se conversa assim. Como se fosse sequer possível essa nossa cumplicidade...
Ah. Mas eu, a despeito da criança que me despertas, não sou ingênua assim como teus olhares me fazem me sentir nos minutos em que me olham! Sei muito bem que não é assim... Não há essa minha passividade. Não há cumplicidade nenhuma. E, sinceridade, sinceramente, não há. Mas quer saber? Isso não me incomoda em nada. São seus olhos de reprovação que me matam. Guarde-os para você, para o espelho, ou no mínimo para quem lhe deve satisfação... Que eu não devo nada a ninguém e, mesmo se devesse, não seria para esses olhos teus a me reprovar...

Já que não me entendes... Não me julgues, não me tentes. - Muito menos me reprove -.

"Pra todo fim, um recomeço."

Porra, meu (pois é, paulistanos estão me influenciando), como se já não bastasse ser ruim o suficiente por um fim em alguma coisa, a gente ainda tem que recomeçar do zero? Lembro-me de um diálogo em P.S. Eu Te Amo que dizia algo mais ou menos assim:

" - Preciso achar um par de sapatos novos. Sapatos que não me apertem. Sapatos que sirvam.- Por que você não anda um tempo descalça? "

Acontece que eu já andei um tempo descalça. Eu andei a minha vida inteira descalça, eu andei no último mês. E tá, tudo bem, é muito legal, mas chega uma hora em que cansa. Não fica mais tão divertido ou libertador assim.

Só de pensar em ter de recomeçar tudo de novo, entretanto...
Em esperar, pacientemente, o tempo transformar afinidade em intimidade.
Em ir construindo, dia após dia, a tal da confiança, que você sabe, você bem sabe, que num sopro de segundos pode cair impiedosamente aos seus pés.
Só de pensar em ter de colocar as minhas mãozinhas queimadas no fogo novamente.

Puta que o pariu.

Meus sapatos antigos já rasgaram, mas enquanto não houver preços melhores, não tenho dinheiro para sapatos novos.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

“Ame como se nunca tivesse sido magoado.”

Difícil, mas 100% possível depois de TEMPO.
O meu Deus é o tempo. Não tem jeito. Com Ele, tudo se ajeita.
Não creio que seja ele o senhor responsável em acertar as coisas como eu queria que elas fossem. Ele simplesmente faz com que aquilo que parecia tão vital e supra-importante naquela hora, perca um pouco ou o total da sua razão de existir com a chegada de outras coisas. Com ele eu bem aprendi que absolutamente nada nem ninguém dessa vida é insubstituível.
Isso não me deixa, porém, muito à vontade em substituir as pessoas que fizeram parte dela em algum momento, como num jogo de futebol, mesmo elas falhando ou faltando todos os dias.
Mas se você jogar uma bola verde na parede, ela voltará verde. Se jogar forte, ela voltará forte. É a lei natural das coisas. Você colhe o que você planta. Você é eternamente responsável por aquilo que cativas – e aquilo que deixas de cativar, também. Se acaso caso for de você ter de sair do meu caminho é porque você fez por onde. Não deixe de fazer uma boa viagem, mesmo assim. E sem volta. Posso sentir a tua falta como se me faltasse um dente da frente. Mas com o meu Deus, o meu sorriso não ficará incompleto eternamente.
Amar, sim, é reconhecer-se, eternamente, incompleto.
Mas amar a si mesmo é maior. É nunca deixar de completar o que já não existe mais. Sem dó, sem drama, sem fé de que tudo vai voltar a ser como antes. O minuto atrás acabou de ser substituído por esse.
Cresça. A vida é um ciclo infinito de minutos incontínuos e substituições constantes.
Aceite seu destino.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Pra começar.

Quando eu tinha uns 13 anos, eu tive, por um ano, uma cachorrinha a mais na minha casa. Ela tinha um problema no esôfago desde pequenininha, então tínhamos que revezar pra bater a ração dela e dar na boca – de colherinha!
Mesmo assim ela vivia passando mal e indo pro veterinário. Tanto é que morreu logo depois. Eu não chorei.
Eu gostava tanto dela e não chorei.
Usei o sofrimento que ela tinha quando viva como pretexto pra justificar como boa a morte dela. Ficava dizendo que tinha sido melhor, que agora ela não sofria mais, etc, etc...
Acho que a gente sempre faz assim.
Quando uma coisa muito ruim acontece, a gente procura de todos os jeitos e em todos os lugares uma válvula de escape. E quando a gente procura, a gente acaba encontrando...
Mas até onde isso é saudável? Essa fuga...
Talvez a gente devesse encarar a coisa toda de frente, de uma vez só. E se doer muito na hora, foda-se... Tudo passa.
O ruim é ter de ficar recorrendo toda hora a um esconderijo qualquer. De repente a gente não encontra nenhum...
E aí?