sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pelas ruas da cidade I

Ou - enquanto eu não quero falar da minha vida, falo das alheias.

De unhas e lábios vermelhos. De barba mal-feita. Os dois saíram do metrô, lado a lado. Não tinham pressa. Nem assunto. Os lábios vermelhos fumavam. A barba terminava - ou começava, depende do ponto de vista - em um par de fones de ouvido. Dois pares de óculos escuros brilhavam. O jeans, às vezes, passava a frente do vestido em passos mais largos. Como eu sabia que estavam juntos? Eu simplesmente não sabia. Eu inventava.


Faço isso com as pessoas que passam na rua. Dou-lhes uma vida minha, nova, provavelmente diferente das que levam. Só pra respirar o prazer de ter amores inventados. Não há liberdade maior do que essa. Quem escreve, sabe...


Mais cedo haviam brigado por causa da mulher que trabalhava com ele. Porque sempre achei que vermelho combinasse com ciúme. Mais tarde iam jantar, a contragosto, com o pai dela. E eu sempre lamentei a barba raspada para eventos como esse. Enquanto isso, o mundo lá fora continuava. Vulcões explodiam. Pessoas passavam fome. Borboletas encerravam a vida de lagartas.


Nenhum dos dois, entretanto, percebia, encerrados num mundo diferente. Num mundo em que, no final das contas e no final do dia, só os dois moravam. Onde o vermelho ficava marcado na pele lisa, cheirando à loção pós-barba. O cigarro, no cinzeiro. Os fones de ouvido, na mesa da sala. Os óculos escuros, no armário. O vestido de um lado. O jeans do outro. Enfeitando o chão do quarto.

3 comentários:

Maria Joana disse...

Ahhhh.

aaaahhhhhh

(imaginando por aí)

^^

Maria Joana disse...

ahh. você bebeu as palavras na fonte. pensa serem elas de um triste contexto

Alice Agnelli disse...

ouuu, paulinha!!!

realmente, só quem escreve sabe a liberdade que existe em respirar o prazer de ter amores inventados.

adorei!