terça-feira, 23 de agosto de 2011

Malas (ou De Mudança)

Eu já fiz muitas malas na vida. A maioria daquelas de sentar em cima pra poder fechar. Já as fiz chorando, já as fiz rindo, eufórica e ansiosa e já as fiz indiferente. Ontem foi a primeira vez que as fiz com raiva. Não de mim. Nem dos outros. Simplesmente com raiva. Não sabia onde ela começava ou para onde ia, se é que fosse. Se a raiva fosse um verbo, me seria intransitivo, naquele momento. Sempre gostei do verbo intransitivo. Independente e sem limites. Mas não gostei da raiva assim - e nem da intransitividade do verbo na minha vida. Independente e sem limites também soa como solitário e inconsequente.

Fui jogando as roupas, uma por uma, sem arrumação ou cuidado algum, como se elas fossem parte de mim arrancadas e jogadas lá no fundo. Me senti uma flor sendo despetalada. E, quando me sentei para fechar o zíper, como um gato jogando areia na merda. Foi isso, ué. Foi exatamente assim.

Fui descamada. Pode tirar, pode tirar tudo que não presta mais, pode arrancar. Pode me deixar em carne viva se preciso for. Que se tiver que doer, que seja de uma vez! Cansei de tratar o coração como um órgão tão sensível quanto os olhos. Que a qualquer menção de toque, automaticamente se fecha. Lembranças, especulações, ressentimentos, foram sendo arrancados como pele morta. Pode lvar junto os calos, a casca, tudo aquilo que me ensinou a resistir e a friamente proteger. Se for pra me entregar, que seja descamada. Não há mudança sem trauma. Não tenho mais medo da dor.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Ela entrou de chapéu panamá e eu perdi a noção do tempo onde isso é tudo: numa sala de espera. É engraçado como nunca estamos preparados para momentos como esse, embora possamos passar a vida inteira esperando por eles. Mais engraçado ainda é eu pensar nela como uma AK47 me dilacerando suas tantas vezes por minuto, mas eu penso. E nem sei por que, nem por quantos minutos... Já falei aqui que eu perdi a noção do tempo?

De dilacerado, perdi a noção da vida, também. Daqueles tiros em diante, morri pra mim. Meus esforços naturalmente se encaminharam, todos e sem medidas, para a vida dela. Como se esse fosse o destino deles esse tempo todo. Me mudei pra perto. Pra junto. Pra dentro. Pra mais dentro. Em todos os sentidos possíveis e desesperados. Tudo para que ela fosse feliz. Não tive problema algum com isso, obrigado.

Só não o bastante a ponto de não me espantar com a subserviência voluntária que meu panamá de cabelo preto comprido, violentamente, atirou em mim. Demorei a perceber a idolatria perigosa que estava intrínseca a isso. E o mal que ela produz. Mas não estou aqui para falar de males ou de dores. Estou aqui para falar que hoje o sol bateu no rosto moreno dela, que reluziu feito ouro, e eu me senti o cara mais rico do mundo, num mundo em que riqueza traz, sim, felicidade.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sublinhados meus

Os Anos, Virginia Woolf

"E com tal imparcialidade que era inevitável pensar que o deus da chuva, se tal deus existe, dizia: que ela não seja privilégio dos muito sábios, nem dos muito poderosos, mas de tudo que respira, masca e mastiga no mundo, dos ignaros como dos desgraçados, dos que labutam na fornalha para fazer cópias sem fim do mesmo pote e dos que esquentam a cabeça no cipoal das letras. Que todos se beneficiem da minha munificiência."

"E por que os homens pensam que os casos de amor tem importância?"

"Bem, uma vez que não podia ler nem dormir, ela seria apenas pensamento."

"O sol nascia. Devagar ele subia no horizonte, esparzindo luz. Mas o céu era tão vasto, tão nu, que enchê-lo de luz demandava tempo." 

"Tinha de continuar, quisesse ou não. Como são irrevogáveis as coisas! - pensou. Fazemos nosas experiências, mas depois é a vez delas."

"Ela já deve ter visto coisas assim. Ele tinha, muitas vezes. Mas não juntos - o que fazia toda diferença."

"Não haveria grande justiça ou liberdade para os da sua espécie se o gordo pudesse mandar - nem beleza."

".... examinando o adorável rosto da jovem, vazio de expressão ou de caráter como o de um pajem, em que nada está escrito, apenas a mocidade."

"Que importa o que ele disse, o que todos disseram, o que qualquer pessoa tenha dito - se o dia à frente lhe pertencia inteiro? Se ela estava só?"

" - Você é jovem demais para sentir isso. (...) Essa necessidade de encontrar as pessoas. De não perder nenhuma oportunidade de encontrá-las."

"O prazer é maior se partilhado. Será o mesmo com a dor? Será por isso que todo mundo fala tanto de doença? Contar desgraça alheia? Exteriorizar a dor e o prazer e, dando-lhes maior superfície, reduzi-los?"

"A dor bate o prazer de dois a um, pensou, em todas as relações sociais."

"Mas por que comer um pedaço de palavra como se fosse uma cereja na ponta de um cabinho?"

"Tudo retornará dessa maneira, em ciclo, apenas com uma leve diferença? - pensou. Se for assim haverá um desígnio; um tema recorrente como na música; meio lembrado e meio esquecido? ... um plano gigantesco, por um breve momento perceptível? Tal pensamento deu-lhe um vivo prazer: a existência de um plano. (...) É a maneira deles de fazer amor, pensou Eleanor, dando apenas meia atenção ao riso deles e a sua guerra de brinquedo. Outro aspecto do plano, pensou, usando a sua ideia ainda informe para registrar a cena presente. E embora essa forma de fazer amor diferisse da antiga, também tinha seu encanto; era um outro 'amor', distinto provavelmente do tradicional, mas seria por isso pior que ele? De qualquer maneira, pensou, estão cônscios um do outro, vivem um no outro; será o amor mais que isso? - perguntou-se ouvindo o riso deles."

"Havia uma certa obscenidade na inconsciência."

"Abriu o livro. Vai dizer exatamente o que eu estou pensando. Livros abertos ao acaso sempre fazem isso."

"Quisera ter o falcão da mente encapuzado, deixar de pensar, pois pensar é um tormento, e apenas vogar, vogar à deriva e sonhar. É a miséria do mundo, pensou, que me força a pensar. Ou seria isso uma pose? Não estaria se vendo na decorosa atitude de alguém que aponta o próprio coração a sangrar? Alguém que vê a indigência da terra como indigência, os horrores de terra como horrores, quando na verdade, pensou, não amo os meus semelhantes. Viu de novo a calçada salpicada de rubis, os rostos amontoados na porta de um cinema-palácio, rostos apáticos, passivos, rostos de gente drogada com prazeres fáceis, de pessoas que sequer tinham a coragem de serem elas mesmas, mas que se paramentavam, imitavam, fingiam... Aqui mesmo nesta sala, pensou, os olhos fixos de um casal retardatário. Mas não vou pensar, repetiu. Faria da mente uma tábula rasa para depois aceitar, num tolerante quietismo, tudo o que viesse."

"Seus movimentos eram ditados pelo hábito, não pelo sentimento. O que teria feito todos aqueles anos?"

"Estavam ali poesia e passado, trancados naquela bela cabeça de efebo grego que os anos tinham encanecido. Por que não forçá-la a abrir-se, a partilhar os seus tesouros? O que haverá de errado com ele, pensou, enquanto respondia as perguntas habituais de um inglês inteligente sobre a África e seus problemas. Por que ele não se deixa ir, não se derrama? Por que não puxa a corrente do chuveiro? Por que tem tudo lá dentro, a sete chaves, fechado e refrigerado? Porque é um sacerdote, um traficante de mistérios, pensou, sentindo a frigidez do outro, esse guardião de belas palavras."  

terça-feira, 5 de julho de 2011

Cê cresce cê percebe cê cresce

Uma coisa boa eu tirei de tudo isso. E o tudo fica guardado comigo.

Cê percebe que cresce, dentre outras coisas, quando começa a lidar diferente com a dor. Quando eu era mais novinha, fazia um escândalo, esperneava, batia porta, me afogava em fatalismos, a vida tinha acabado mas, ao mesmo tempo, eu fugia do luto, estendendo a coisa ao máximo. Era legal sofrer. Era tipo falar serviço. Quando você fala "daqui a pouco te ligo, tô no serviço", num é tão adulto, tão legal, no começo, por menos que o seja de fato? Sofrer é assim. Daqui a pouco a gente marca de sorrir, tô sofrendo agora.

Hoje deitei no banco do carro, na garagem de casa e fiquei ali, de peito aberto, dilacerado. Sem nenhum esforço em fechá-lo ou curá-lo. Alguém tem morfina, por favor? Não, não, deixa aqui, deixa quieto, muito obrigada. Sem drama, sem lágrima, sem loucura nenhuma. Porque eu sei que passa. É só esperar que passa. Sem desespero. Des-esperar é um não-esperar, já perceberam? Espero. E sei que vou esperar muito mais, mas tão diferente agora. Deixei o tempo fazer seu trabalho enquanto imaginava o ferimento, caso minha dor fosse externizada. Como um tiro no peito? Mas eu não sei como é um tiro no peito. E eu imagino uma coisa assim aberta, estrebuchante, bem feia, sangrenta e vermelha. É? Nem sei se quero saber. Menos pela imagem do que pelo modo com que posso descobrir isso.

Depois de tocar a discografia inteira de Los Hermanos no som do carro, melhorou, passou. Agora era só esperar o dia seguinte pra fazer tudo de novo, até não voltar mais. E não volta. Sabe velho quando você vai visitar? Que sai no meio da visita pra tirar um cochilo? Ele sai que ele sabe que a visita vai embora! Penso a dor como visita que é: quando novos fazemos de tudo pra dar atenção, mesmo quando não aguentamos mais. Depois de velhos... que se foda. 

É. Penso assim, cê percebe que cresce quando todas coisas vão perdendo a importância pro tempo (que cê cansou de perder pra elas).

sábado, 4 de junho de 2011

Socorro

A vida tem sido correr em ânsia. E uma ânsia sem nome e sem endereço. Parecida com aquela fome que você tem sem saber exatamente do que: não mata, mas também não sacia. Me pego repetindo pra mim mesma, constantemente (toda repetição é necessariamente constante?): foco, garota, foco. Mas me sinto como um cão que não vinga quando tentam adestrá-lo. Errando os mesmo erros, desobedecendo as mesmas regras, correndo quando vão corrigi-lo. E se eu corro. Seu... Corro.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Primeiro pensamento do dia

O sol me fez abrir os olhos; impreterivelmente me faz. Lembrei-me de quando tinha você ao lado e isso acontecia. Eu ficava contando suas pintinhas. E beijava cada uma delas até adormecer novamente. Você nunca acordou. Acho que se acordasse eu enrubesceria de vergonha. Eu tinha vergonha de te amar. Depois tive ânsia. Depois desespero. Enfim, medo. Mas como eu amava suas pintinhas! E que saudade delas, da tua pele branquinha, branquinha... do teu peso. A ausência, que tomou o seu lugar assim que eu sai por aquela porta, a ausência não pesa nada. E acho que não pesa de maldade, justamente para que você nunca se iluda de que tem alguém do seu lado quando ela se deita para dormir com você. Fazer amor com a ausência é um estupro. É se dilacerar a noite toda. É segurar o coração enquanto as roupas caem contra a sua vontade.

Eu já segurei o coração nas mãos, antes. Quando o metrô ia passando as estações para chegar na sua casa, por exemplo, ele ficava lá, contando, pulsando acelerado entre meus dedos. Falta muito, tá chegando, que horas são? Mas assim que chegava, eu te entregava ele. E quando as roupas iam parar no chão, ele já estava sob os seus (bons) cuidados há muito tempo. Fazer amor com a ausência é nunca entregá-lo a você. É continuar num metrô de estações infinitas. Não tá chegando, não vai chegar...

É um despir-se no trem com todo mundo olhando. Esse não é o pior tipo de pesadelo? A diferença é que, no meu caso, ele começa quando eu abro os olhos. Ah... Não consigo adormecer sem contar as suas pintinhas... como eu contava as estrelas do céu antes de te encontrar.
E agora, que vai ser mais brilhante que você?

terça-feira, 10 de maio de 2011

Pílula de pensamento

Penso que minha vida inteira foi uma casquinha de machucado.
Segui cutucando, cutucando, sem a menor intenção de curar.