quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Melancolia

E se o que estou lendo é muito bom, a ponto de me encher de euforia e excitação, não como as páginas como a esfomeada que naquele momento sou. Escolho um ponto final, fecho o livro, respiro, e me demoro em fazer alguma coisa à toa, como checar o celular - que se não tocou é óbvio que não tem nada - e aí, então, volto a ler. Quando passa. É essa minha relação tacanha, furtiva, minha timidez calculada com o prazer.

Com essa minha natureza melancólica, que seria o prazer senão meu amante?
Que chega com ares de ladrão, me toma de assombro, por mais que eu, de tocaia, o aguarde, e começa a se instalar. Me abrindo, me tomando. Me traindo. Ser feliz me é clandestino. Preciso parar, preciso de um tempo, contar o tempo que tenho, preciso respirar, enquanto... ofego.

E em vez de ler ininterruptamente, num arroubo de delícias, pautada na razão - que não me abandona nunca - de que se o celular não tocou não há nada a checar, me ludibrio como toda traidora e o mudo para o modo silencioso. Uma desculpa para parar. E assim me dar o intervalo racional que busco, na ansiedade que preciso, para não me afagar.
Afogar.

A felicidade me dói demais, enquanto me fada a monogamia.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Um dia eu chego lá

Um dia me perguntaram quando eu tinha começado a escrever. E a verdade é que eu creio ter começado a escrever desde o dia em que aprendi. Ou, talvez, e se possível, até antes disso. Não foi por causa de um acontecimento, um dia, um sentimento, ou  uma inquietação. Foi tão natural quanto perguntar a minha mãe se a professora dela tinha sido tão maravilhosa quanto à tia Dila, porque a tia Dila tinha me ensinado a escrever. Minha mãe ficou conhecendo meu destino. Minha mão já conhecia o caminho.

Lamento não ter guardado meu primeiro registro, e de também não me lembrar dele. Adoto, então, aquele mais antigo que já achei, guardado, dentre os outros, em um caderno de 1997, com as páginas bem amareladas, em que eu me descrevo, logo no início, assim (erros ortográficos mantidos): "Estudo no CEI à 3 anos e meio. Tenho 8 anos e estou na 3ª série. Essa é a série mais difícil de todo o primário. A! Esqueci de dizer que meu nome é Ana Paula. Eu gosto de escrever histórias."

E minha mais antiga história registrada, logo na primeira página, ainda com os erros mantidos (e já falando de amor... haha):

Um dia eu chego lá

Dedé é uma tartaruga muitíssimo lenta, por isso nunca tinha arranjado namorada (!).
Até que um dia, apareceu uma tartaruga perguntando por Dedé.
Dedéia achou Dedé, e marcou um encontro com ele. Mais, Dedé era muito lento, e o lugar era muito longe.
A salvação de Dedé era que o encontro era daqui a duas semanas.
Treinou uma semana na academia da girafa e outra na academia do castor.
O dia do encontro Dedé se aprontou como nunca no salão da cadela.
E foi correndo. Encontrou Dedéia e lhe disse:
- Valeu o esforço!
Dedéia não entendeu mais nada. Fim. (Com um coração de pingo no i)





Posto isso hoje,
Para eu não me esquecer do sentimento. Nem do porquê.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

E por falar em voltar,

Nunca sai de carro (de casa, de você) sem destino. Então não sei bem o que eu faço depois de tirá-lo da garagem só porque nessa noite está chovendo, e dentro de casa (do outro lado do telefone, de mim) não há ninguém. Nem luz há.

Talvez eu pudesse ir até o fim da Afonso Pena. Talvez até a casa de uma das minhas irmãs, mas sem necessariamente entrar. Não, não quero falar com ninguém. Talvez uma volta no quarteirão... talvez até a gasolina acabar. Eu preciso voltar?

Aos (uns) 18, Zélia Duncan repetia bem no meu ouvido, como que um segredo,  que se você vai por muito tempo, você nunca volta. Você retorna, você contorna, mas não tem volta. E desde então, num esforço quase que inconsciente, quase que anestesiante, nunca deixei esse tempo se tornar tanto tempo a ponto de isso acontecer. Mas, na boa, quanto tempo é muito tempo? No amor? Quase nada... Retornei e retornei sem nem perceber que eu não estava voltando.

Mas não tem re volta, não.

É preciso voltar ao começo para entender o fim.
E, às vezes, é preciso não voltar para recomeçar.

Deixa, deixa a gasolina acabar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Manual de instruções

Queria te fazer um manual de instruções pra brincar comigo.

Não me ame porque eu pareço frágil.
Porque eu pareço amável.
Porque eu pareço você.
Não me ame por um porquê.
Não me ame porque eu pareço perdida.
Não me ame, que eu estou perdida.
Não me ame.
- eu vou perder você.

E não se esqueça: eu não quebro fácil.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

{ km }

(para quem fala ka eme)

Parem de me oferecer um trago.

Uma saída, um boteco, um colo, os ouvidos. Parem!
Parem de me oferecer um trago - que não seja um verbo, e acompanhado dele.
O que eu queria, hoje, era sair daqui, pegar a estrada e dormir ao seu lado. Na verdade, o que eu queria é que o lado fosse aqui do lado. Que não houvesse distância alguma. Havendo, na metade do caminho, (quando o pendrive mal tiver tocado) eu vou me arrepender e voltar pra casa.

...
Desconfio que entre nós dois sempre haverá uma metade do caminho que me fará pegar o retorno mais próximo.

Saco.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Sem fantasia

Se apaixonar não é mágico. Não acontece de uma hora pra outra, quando menos se espera. Não é como queimar a mão na panela quente: ops, queimei! É mais como deixar queimar o arroz. No começo de nossas vidas juntos, eu deixei queimar o arroz de propósito. Estava fuçando nas coisas que você tinha acabado de trazer de mudança, e por fuçando eu digo freneticamente fuçando, quando senti aquele cheiro de queimado, que ainda podia ser salvo. Mas eu não parei! Não parei até encontrar alguma coisa que eu julgava querer, mas não precisava encontrar. E que mudou todo nosso relacionamento depois disso, desnecessariamente. Ah, meninice... Mas isso já é outra história. O que eu tô querendo dizer é que eu deixei a gente queimar, também. Sem chance de salvação. Até acabar numa casa, sem horta, sem criança, com pizza de microondas para o jantar, mas amor de sobra.  

Tem sempre um momento. Tem sempre um momento em que você escolhe esse amor. Você decide se apaixonar ou não. É sem desculpas. E é sempre.  O meu momento foi quando demos carona para a sua mãe e você deu um jeito de me olhar pelo retrovisor e sorrir um sorriso de lábios fechados e coração aberto. Você já tinha tido o seu momento àquela altura, e já tinha escolhido a mim. Então, escolhi. Você pode não se lembrar exatamente de quando escolheu e decidiu se apaixonar, mas você sabe, você sabe que podia ter pulado fora. Desconfie das pessoas que dizem que aconteceu. Amor não simplesmente acontece. Você permite que aconteça. Se apaixonar não é incontrolável, mágico, além das nossas forças ou compreensão. Não há fantasia. É pura lógica e ciência - com um quê de química.

Se se apaixonar fosse tão incontrolável assim, estaríamos, todos, o tempo todo, nos apaixonando por aí. Se se apaixonar fosse místico, seria periódico.  E, pra mim, que te sorri em resposta naquele encontro pelo retrovisor, aquele dia, e te escolhi em cumplicidade para amar, pra mim não é. Eu me apaixonei por você há anos, e acabou. 

Ou apenas tenha começado.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

My Proof: minha preferida


“this photograph is my proof. There was that afternoon, when things were still good between us, and she embraced me, and we were so happy. It did happen. She did love me. Look see for yourself!”

Duene Michals, 1974.
Vale um google it.