terça-feira, 28 de outubro de 2008

EU NÃO SOU UMA MENINA COM UMA FLOR I

Quisera eu ser delicada como pétala, menina com uma flor pra quem Vinícius escreveu.
Não sou.

Sou, no máximo, uma menina com um espinho. Com muitos espinhos, diria quem quer que escrevesse. Isso é, se alguém se arriscasse a escrever sobre o pouco que inspira e sou eu.

Diria, então e em seguida, que os espinhos podem ser melhores que as flores, às vezes...
(Porque eu sou tão egoísta que preciso ficar por cima em todas elas.)
E explicaria que eles não saem por aí se despetalando com qualquer brisinha. Muito menos atraindo o bico intrometido de qualquer pássaro meia-tigela.

(Essa equiparação de ser melhor com ser mais forte e mais forte com menos vistoso foi a vida mesma que me ensinou, num desses momentos bêbados e gostosos - ou de puro uísque e desgosto.)

Mas, mesmo para uma menina com mil espinhos, ou dois ou um, eu tenho desses deslizes.
Me despedaço e desespero, de vez em quando. E atraio, principalmente quando sem querer, tudo aquilo que é bonito de tão triste.

Mas o espinho também, muito e além de tudo isso, machuca os outros em prol dele próprio e de tudo aquilo que protege. Aí até finjo que não sou egoísta! Ou percebo que devo ser uma espécie de egoísta com instinto materno. Porque deixo ele deixar de ser posse e passar a ser tudo aquilo que me rege, meu caminho.

Passo a ser espinho.

Assim

Dura. Bruta. Crua.

Arredia.

Arrancada.

E fim.


Não... Definitivamente eu não sou uma menina com uma flor. Não adianta!
Mas eu sou uma boa menina.
E mesmo que o espinho que carrego, sou e encerro, te fure e fira, deveras vezes, ainda assim sou a sua boa menina. Só sua!

Eu sei, e como sei, que você me queria assim, menina como flor, chorosa e delicada. Feminina e carinhosa. Doce frágil mulher apaixonada...
E queria que eu fosse sensível e meus olhos marejassem com qualquer coisa bonita que você me falasse. E que até nossas roupas, por esforço meu, combinassem.
Que me queria ligada a você todas as horas do dia. Que eu te acordasse de madrugada pra dizer que te amo, e me descabelasse se você chegasse atrasado.
Sei também que reclama da minha falta de ciúme, da minha independência de você e das minhas manias. E que fala mal dos meus amigos, do meu humor, no mínimo peculiar, e da minha selvageria.
Sei de tudo isso, mas...
Quer realmente saber mais verdades boçais?
Eu não sou nenhuma menina com uma flor. Só que você, meu querido... Você também não é nenhum Vinícius de Moraes!

4 comentários:

Maria Joana disse...

Ui! A última frase confirmou, se caso houvesse alguma dúvida, que você realmente não é uma menina com uma flor!


Mas também... não sei se é assim tão interesante ser flor. Eu devo também ser mais espinho.

Esse papo de flores e espinhos me lembrou o pequeno príncipe. =]

Alice Agnelli disse...

Ahhh... mas que vc tem flor na cabeça, isso tem!

(e mais uma pra juntar no timespinho.)

jaum_di_boas disse...

meu... 2008 é O ano da sua antologia. é tão lindo ter acompanhado a sua evoluçao literaria. dá gosto de ver como vc escreve, nao me canso de dizer isso. tao madura.
me orgulho de vc!

bjo de saudade

JG

Felipe Lobo disse...

Ah, essa sua última frase foi de matar! Espetou o seu espinho em alguém, sem a fúria das odiosas e sem o carinho das rosas.
Apenas sendo vc mesma.
Bom, muito bom texto!