sexta-feira, 11 de março de 2011

Singeleza II

Aconteceu. Fazia dias que ela estava esperando. Mas não foi sem esperança de estar errada que ela foi. E deu. Já sabia até o que fazer, para variar. Depois do sexo que não dormiram, não se abraçaram, não falaram nada, nada. Si lên cio. Um vácuo, uma distância. Uma solidão, uma solidão. Tomou o banho e arrumou as malas. Não podia mais aceitar um sexo sem amor com um homem que ainda amava.
Partiu. Partida. De coração apertado, infeliz.
Apartada dele, pra sempre, enfim.
Julgava sinceramente cuidar mais da vida do que de mim. Deformei, ninguém imagina o quanto, a minha obra – o que não quer dizer que se não fizesse isso, ela fosse melhor… Abandonei, traição consciente, a ficção, em favor de um homem-de-estudo que fundamentalmente não sou.
Mário de Andrade

Seriamente tentada em abusar por aqui.
(e largar a faculdade, mas isso num é novidade).

quinta-feira, 10 de março de 2011

de Liz Gilbert

O único excerto de Comer, Rezar, Amar que eu guardei - e dividi:

" - Não estou rindo. - Na verdade eu estava chorando. - E, por favor, não vá você rir de mim agora, mas acho que o motivo pelo qual é tão difícil para mim esquecer esse cara é que eu realmente achava que o David fosse minha alma gêmea.
- Provavelmente era. O problema é que você não entende o que essa expressão significa. As pessoas acham que alma gêmea é o encaixe perfeito e isso é o que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama sua atenção para você mesmo, para que você posso mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea pra sempre? Não. Dói demais. As almas gêmeas só entram na vida para revelar a você uma outra camada de você mesmo, e depois vão embora. Acabou, Sacolão. A missão do David era acordar você, tirar você daquele casamento do qual você precisava sair, destroçar um pouquinho o seu ego, mostrar para você os seus obstáculos e vícios, despedaçar o seu coração (...), deixar você tão desesperada e fora de controle que você fosse obrigada a transformar sua vida. (...) mas agora acabou. (...) Então largue isso.
- Mas eu amo ele.
- Então ame ele.
- Mas eu sinto saudade dele.
- Então sinta saudade."

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Menina

Eu não desenhei você, menina. Primeiro que se eu tivesse parado e desenhado você, menina, você teria um belo par de olhos azuis. Pra não dizer outras coisas que vem em pares... Ah, e você não reprovaria esse meu comentário. Fato é que você teria, sim, sem sombra de dúvidas, uns olhões assim de dar gosto, menina!
Sequer poderia pensar eu que o retrato mais bonito que faria de você seria um com os olhos fechados. E mais... Sequer poderia pensar eu que esses olhos fechados seriam minha companhia em todos os momentos mais prazerosos da minha vida, simplesmente por indicarem os momentos mais prazeroros da sua...
Depois que eu nunca pensaria em como desenhar seu narizinho. Passaria reto e cego por ele. E só hoje eu sei como acho gracioso o seu narizinho. Cheio de pintinhas que aumentam com o sol, franzido quando voce ri, torcido quando me desaprova. A coisa mais linda desse mundo. Desde o primeiro beijinho de esquimó. Essa coisa brega que você insistia em fazer toda vez que me via mal-humorado. Eu ria.
Também não te faria tão alta e desengonçada, menina. Você é tão desproporcional... Tão. Que me encanta profundamente. Quase que me emociona. Te ver chegar ou ir, sempre deselegante, meio menina, meio moleque, quase nada mulher.
Você não seria tão exibida, também. “Olhem para mim, como eu sou atraente, como eu canto bem, como eu sou engraçada, blá, blá, blá.” Mas isso eu sei que é puro ciúme. E me quebra vez’emquando, mesmo sabendo que é besteira.
No fundo, creio que não te faria mais bonita. Você não é a mulher mais bonita que eu já vi nesse mundo. Mas tem uma beleza assim que não enjoa a gente, sabe. Que não afasta a gente, nem inibe. Só convida. E nem sempre recebe.
Você seria flamenguista e faria medicina. Não teria dores de cabeça ao prender o cabelo e nem derreteria o sorvete para tomar porque “assim é mais gostoso”. Você saberia menos de carros. Na verdade, você simplesmente só dirigiria pior do que eu e, às vezes, só às vezes, me pediria pra fazer uma baliza difícil.
Mas não fui eu que te desenhei, menina. E eu agradeço todos os dias por isso. Agradeço a Deus, ou o que quer que erroneamente chamamos de Deus, por não ter desenhado você. Ou talvez, ainda agradeça a Ele por ter parado e desenhado. Como eu ia criar uma coisinha assim como você?
Que anda em câmera lenta?
Não. Não é que eu ouça música, sinos ou veja estrelas quando te vejo.
Nem tudo para. Aliás, tudo continua.
Mas é que você mexe comigo em câmera lenta, sabe?
Deve ser quando eu bebo demais.
Ou de menos – e aí que a necessidade de te esquecer vem forte e tudo em você parece ter que demorar mais pra ficar mais tempo comigo. Talvez se você fosse de minha autoria não tivesse que ir embora e me obrigar a te banir dos pensamentos.
Mas, sem hipocrisia, mil vezes a tua liberdade de mim do que a mísera possibilidade de eu te criar menos menina. Essa menina que quando eu disse “me abraça” em francês, bêbado, no meio da rua, me abraçou segura. E eu achei lindo! E te amei mais que tudo.
Minha menina.
Mil vezes a tua liberdade que a tua desnatureza.
Linda.
Selvagem.
Rainha.

Sozinha.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Madrugadeando

Ela, pra quem o amor era morrer por alguém, perguntou:
"Você tem medo de que eu morra?"
E eu queria ser fiel à resposta dele, mas nem eu sabia qual era... Poderia mentir, inventar, ou criar, como eu gosto de dizer, mas eu queria saber de verdade. Eu queria as coisas de verdade, agora. Especialmente as respostas, especialmente o amor. E isso me fez perder o controle dos meus personagens. Se eu soubesse o que ele iria dizer... Só sei que, ah, se eu pudesse realmente saber e ele pudesse realmente responder, a próxima pergunta dela estaria na ponta da (nossa)língua: "e quando é que você vai me deixar?"

Mas... não sei.
(segredo: nem sei se ele sabe).

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

2011

Se alguém me contasse, no começo desse ano, que eu trancaria a USP e não voltaria pra São Paulo, que passaria o natal e o reveillon na Argentina, que engordaria cinco quilos, que compraria um cachorro, que enjoaria de comida japonesa, que descobriria um desamor e um amor de mesma intensidade... Eu iria dizer 'cala a boooca!'

Alguém tem alguma dúvida de que eu não vá especular nada do ano que vem?
Que venha.
E nunca percam a fé num ano ímpar.

:D

Boas festas desde já que eu não volto pra cá tão cedo.
I guess.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Verdade

Eu não canso de me arrepender. Não canso de fazer perguntas sem respostas, de me questionar por que fui fazer isso ao invés daquilo, por que não disse exatamente tal coisa ou por que eu não posso simplesmente voltar uns meses de vida e não esfaquear oportunidades que hoje eu lamento, irresistivelmente, ter esfaqueado até a morte. Não canso de exaltar um passado que não tem a menor possibilidade de voltar, de me condenar por um erro irreversível. Aliás, eu até hoje não tenho bem certeza se existe algum que se reverte mesmo... Não canso de trair a mim mesma, fazendo, sentindo, falando e até comendo exatamente o que eu me prometi nunca mais, nunca mais, voce tá me ouvindo?
E eu não vou me cansar nunca. Se engana você se acha que pode continuar assim que um dia vai se cansar, mais do que todas as outras vezes em que disse que estava exausto, que não aguentava mais, que aquela era a última vez.

Se lamentar não cansa, meu amigo. Vicia.
Você, assim como eu, só vai parar o dia em que perceber que supervalorizamos demais nossas escolhas pessoais. E isso pode demorar muito, muito mesmo, se contarmos com a nossa deseperada necessidade em pertencer, em nos sentirmos com alguma significância nesse mundo. Ainda mais quando não temos ninguém para dizer que pelo menos na vida dessa pessoa significamos.