quarta-feira, 15 de abril de 2009

Meu vô, por meu pai.


Minha vó, por mim:
Minha vó não ia a festas. Mas ia a todos os funerais. Ela não era um ser humano normal. Mas eu gosto de pensar que era um ser humano demais.
Ela tinha um sabor assim agridoce. A doçura das avós e o amargo dos anos. Já eu, que só tinha a inexperiência insossa da falta deles, nunca consegui aceitar essa amargura, aparentemente, comigo. O que me fez cometer um rio de injustiças, especialmente, com ela.

Suas mãos eram todas pintadinhas. Os lábios também, em toda visita. Mas eu não fiz muitas visitas a ela na vida... E isso é o que mais me dói nisso tudo. Essa mania preguiçosa de adiar tudo e não entender nada.

Sua comida era simples: tudo junto e misturado.

Mas minha vó era um pouco assim: Tudo junto e misturado. Todos os anos da sua vida, todos os ressentimentos, todos os acontecimentos e sentimentos, todo passado, presente, futuro. Um tudo numa coisa só. Numa coisinha, por sinal.
Nunca tinha reparado em como ela era pequena como no único dia em que a visitei no hospital.
A segunda coisa mais frágil que eu já toquei na minha vida.
O que mais me chamou a atenção foi a primeira delas. A fragilidade do meu avô perante a fragilidade dela. A despeito da neta que tem, meu vô é um homem grande. E forte. Demais. Nunca o tinha visto fraquejar. Nunca o tinha visto chorar nem falar palavrão. Vi tudo junto e misturado quando o junto e misturado que o matinha em pé, se foi.

Ela era o leme.
Ela era a força.
E ser o leme e ser a força não só sua, mas também de alguém, ainda mais alguém que parece ter o dobro da sua força, e apesar de toda amargura da vida, de conhecida a pior dor do mundo, que é a de perder uma filha, não é pra qualquer um.
Hoje, a gente precisa de todo mundo de casa pra fazer o que ela fazia em um segundo. E não dá conta! Hoje a gente não é um terço do que mantinha o velho em pé. A gente não é um terço do que era ela.

As perguntas de sempre sobre onde eu pintava o cabelo, as reclamações de que eu não ligava, os saltos fazendo barulho pelo corredor, as chipas cuja receita nunca foi revelada, a missa, os óculos, as jóias, as histórias, tudo me falta. Tudo me lembra ela. E com o tempo acho que piora. A ausência se faz mais presente, em todo lugar.

Mas se eu puxei um pouquinho da fortaleza e da paciência dela, vai dar pra aguentar. Vai dar pra aguentar muita coisa. E é nisso que eu prefiro pensar, agora.

Ela morreu sabendo que era forte e bonita.

E, hoje, eu posso viver sabendo que, realmente, era.

4 comentários:

Victor disse...

=)

Maria Joana disse...

vou com o Victor. palavras demais agora estragarão o momento

Du Graziani disse...

... pela força que nunca seca ...

Alice Agnelli disse...

"A ausência se faz mais presente, em todo lugar"

me fez lembrar a melhor definição que já ouvi da palavra saudade:
é a presença da ausência.

mas é nessa saudade que se tem a certeza do amor.

;)